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A atriz Deborah Secco contou as suas revoluções internas com suas personagens

Atriz completa 40 anos em 2019 com uma celebrada carreira no cinema e na TV. (Foto: JC Pereira/AG News)

Em algum momento dos anos 1980, os telefones das recepções das redes de TV Globo e Manchete tocaram incessantemente. Do outro do lado da linha, a voz fina de uma menina de 6 anos pedia uma chance: “quero ser atriz”, dizia às secretárias. De tanto insistir, conseguiu agendar um teste. Hoje, prestes completar 39 anos, ela é Deborah Secco, artista consagrada no horário nobre e no cinema.

“Não me lembro de desejar ser outra coisa que não atriz”, conta ela. “Desde garotinha, chegava aos lugares e dizia às pessoas: ‘Sei cantar, dançar e sapatear. Sou a atriz que você está procurando. Me contrata e você não vai se arrepender.'”

Embora possa se considerar bem-sucedida, ela não se deitou na zona de conforto. A natureza de seu ofício a impede disso, e iniciar cada projeto é como “zerar a vida”, assim como terminá-lo. Na reta final de “Segundo Sol”, a atriz cortou os cabelos com as próprias mãos, enquanto dizia “morre, Karola” à sua controversa vilã, perturbada pelas maldades cometidas na trama.

“Fiz isso livremente, sem medo de errar, porque era um corte de desespero. Foi muito forte fazer essa desmontagem no ar. Normalmente, fazemos isso depois que termina o trabalho. Sou muito grata a Karola por ter me proporcionado essa experiência”, afirma, acrescentando que o trabalho a deixou exausta, ao ponto de não conseguir pensar em outros projetos, além de viajar com a família e descansar. “Ela era muito densa, levava tudo a ferro e fogo. Deixou muitas marcas em mim.”

Na vida pessoal, o cabelo curto fez o maior sucesso. Tanto Deborah, quanto o marido, o também ator Hugo Moura, adoraram o resultado.

“Ainda estou me adaptando esteticamente, entendendo quais roupas combinam, e de que forma posso penteá-lo. Mas, sem dúvida alguma, é muito mais prático”, afirma. “O Hugo também amou. O pedido dele é que eu fique assim para sempre. Disse que nunca fiquei tão bonita.”

O novo visual não deixa de ser o registro de um bom trabalho em cena. O autor do folhetim, João Emanuel Carneiro, afirma que, assim que criou o papel, pensou na escalação da atriz e está muito satisfeito com a escolha.

“Fico fascinado com a capacidade de entrega dela, que está interpretando magistralmente a personagem mais difícil da novela”, elogia João.

Em outra cena marcante da trama, Karola foi hostilizada depois que um caso com o cunhado foi revelado publicamente. Na sequência, ela atravessou uma praça pública sob vaias e gritos, numa agressão muito semelhante aos linchamentos virtuais que tomaram conta das redes sociais nos últimos anos. Nem Deborah, a de carne e osso, está livre desse mal. Para citar um dos casos mais recentes, ela foi muito criticada por fazer uma dieta durante a gravidez, ainda que tenha sido uma recomendação médica. Mas ela avisa que contorna bem a situação:

“Com o passar dos anos, fui entendendo que as pessoas precisam julgar as outras para ouvir a si próprias, e comecei a me desligar dessas opiniões externas de quem não me conhece. Acho que já passei da fase de me sentir injustiçada.”

Mas Deborah diz que não tapa os ouvidos — e os olhos — para todas as críticas, sobretudo aquelas acerca da sua atuação em cena, em que a busca por aperfeiçoamento é uma constante.

“Leio muito a rede social da novela, em que algumas pessoas falam mal da minha interpretação. Mas aí eu curto, porque todo mundo tem direito de mostrar a sua opinião”, pondera. “Sem dúvida, sou a pessoa mais crítica em relação ao meu trabalho. Todas as considerações são pequenas diante disso.”

A relação com as críticas tem a ver com o seu maior sucesso no cinema, o filme “Bruna Surfistinha” (2011), de Marcus Baldini. Para viver a história da garota de programa, Deborah imergiu numa intensa preparação, que incluiu dormir numa casa de prostituição. Para conseguir acessar as verdades das mulheres que lá estavam, precisou se abrir com elas, expor suas tristezas e se sentar no chão para comer baião de dois.

“Uma das meninas me disse: ‘Não somos o que queremos ser, mas o que conseguimos. Queríamos ser muito melhor, mas não deu. Não teve emprego. Não teve outra possibilidade'”, lembra. “Ali entendi o ‘não-julgamento’, porque não vivi o que elas viveram. A maioria havia sido estuprada pelo pai ou pelo padastro com o consentimento da mãe e fugiu de casa aos 7 anos. Isso é muito distante da minha realidade. Não sei se não faria isso, caso fosse a minha única possibilidade, e precisasse me virar sozinha com tão pouca idade e com uma filha para sustentar.”

No cinema, a entrega de Deborah aos papéis também é reconhecida por quem a escolhe para as produções. Diretora do filme “Boa Sorte” (2014), em que a atriz emagreceu 11kg em 45 dias para viver uma soropositiva em fase terminal, Carolina Jabor a considera uma profissional “completa”.

“A Deborah tem duas coisas que fazem dela uma das maiores de sua geração: é uma atriz com um domínio técnico total e ao mesmo tempo irracional, com uma emoção à flor da pele. Sua entrega para fazer a Judite foi imensa, surpreendente”, diz Carolina.

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