Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

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Capa – Fama & TV A briga entre as cantoras Anitta e Ludmilla acendeu o debate sobre a autoria de músicas

Amizade entre Anitta e Ludmilla acabou em razão do desentendimento. (Foto: Reprodução da Internet)

A rixa recente de Anitta e Ludmilla, acendeu o debate sobre autoria de músicas na era das participações, da composição coletiva e da informação altamente registrada. De muitas maneiras, o conceito de compositor nunca foi tão fluido.

A gota d’água na briga de Ludmilla com Anitta foi a decisão da cantora de “Vai Malandra” de se incluir como coautora de “Onda Diferente”, um funk com participação de Snoop Dogg. Ludmilla, a compositora da canção, aceitou dividir os créditos meio a meio com Dogg, a pedido do rapper americano.

Mas, para a surpresa de Ludmilla, Anitta também se colocou como uma das compositoras da música. Ludmilla ficou sabendo da história pela internet, informada por fãs de Anitta, quando Ivete Sangalo cantou “Onda Diferente” em seu show no Rock in Rio.

Ludmilla diz que havia mostrado a canção à gravadora, a Warner, que só acreditou no potencial da composição depois que Anitta apostou na faixa. Anitta também diz que deu pitacos na produção.

No Ecad, que cobra e distribui os direitos autorais de músicas no Brasil, há dois cadastros de “Onda Diferente”. Um com Anitta, Ludmilla e Snoop Dogg, e outro sem Anitta.

“Por conta disso, eles estão bloqueados”, diz Mario Sergio Campos, gerente executivo de distribuição do Ecad. Segundo ele, até que o impasse se resolva — no caso, um dos cadastros seja validado — os direitos da canção estão bloqueados.

O desentendimento das duas é resultado da falta de um acordo prévio, mas o caso está cheio de nuances. Para Pablo Bispo, autor de hits de Iza e Pabllo Vittar, na música pop atual os conceitos de produção e composição se misturam.

“Antigamente, o compositor fazia a partitura e dava exclusivamente para o arranjador” diz. “Hoje, como é tudo eletrônico, acaba misturando batida, melodia, sample. Principalmente nessa nova ‘música urbana’. Você está fazendo um funk no quarto, zoando na rua. Não tem como mensurar como antigamente.”

No coletivo que ele integra, o Brabo Music Team, tudo é feito de maneira colaborativa. Ele lembra, por exemplo, de quando uma assessora da cantora Lary, em sessão de estúdio, deu uma ideia que acabou sendo usada na faixa —e ela foi creditada como autora.

“Todo mundo que participa do processo está dentro da música”, diz. “Mesmo que as ideias da pessoa não tenham entrado [na música].”

Esse olhar coletivo para a composição é comum também entre os sertanejos. Em Goiânia, alguns dos grupos de compositores mais bem-sucedidos trabalham desta maneira.

Everton Mattos, do coletivo Single Hits, diz que todos os parceiros ganham crédito. “Por mais que você não esteja num dia iluminado, você fala alguma coisa que acaba levando a outra que acaba na música”, explica. “Dividimos em seis partes iguais. Mesmo se a pessoa faltar no dia, sempre vão estar os seis.”

Um dos seis integrantes do Single Hits trabalha mais com produção do que diretamente com composição. Ainda assim, pela influência no arranjo, ele também é listado como autor.

O acordo do coletivo lembra o que faziam John Lennon e Paul McCartney no começo dos Beatles. Eles assinavam como Lennon/McCartney todas as faixas criadas por um, pelo outro ou em dupla.

O caso de Anitta e Ludmilla levanta ainda outras questões. Em nenhum dos dois cadastros feitos no Ecad, o beatmaker Papatinho aparece como autor — ele é creditado apenas como intérprete.

Ser autor significa ter participação na obra, que é imaterial. Ser intérprete dá direitos apenas ao fonograma, que é a gravação da música. Essa distinção se reflete no dinheiro.

Segundo o Ecad, 85% dos direitos de execução pública — shows, rádios, programas de TV, bares — vão para os artistas. Destes, dois terços são relativos à obra (autorais) e um terço ao fonograma (intérprete).

Em um show como o de Ivete Sangalo no Rock in Rio, 85% do valor arrecadado pelo Ecad é totalmente destinado aos autores. Isso porque, em apresentações ao vivo, não há uso da gravação. Os intérpretes são os músicos no palco, que ganham cachê.

O streaming tem outras regras. Segundo Mario Sergio Campos, cerca de 70% do faturamento líquido do Spotify vai para o pagamento de artistas. Destes, 58% vai para as gravadoras — que detêm os fonogramas — e 12% para os autores.

Só uma porcentagem desses 58%, negociada antes com a gravadora, é o que recebem os intérpretes. É o caso de Papatinho em “Onda Diferente”.

Mas a discussão sobre a inclusão de beatmakers e produtores como autores está avançada. Já que, muitas vezes, eles são responsáveis por criar e gravar toda a base — o que inclui batidas e melodias eletrônicas — de uma música.

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