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A briga judicial entre uma professora e uma aluna: diferenças ideológicas entre duas historiadoras foram parar na Justiça

A mensagem cita, na área de educação, o objetivo de reavaliar ao menos seis ações e políticas educacionais, sem indicar quais seriam os caminhos a seguir. (Foto: Divulgação)

Historiadoras Ana Caroline Campagnolo e Marlene de Fáveri protagonizam um caso emblemático do movimento Escola Sem Partido e simbolizam polos opostos na atual disputa política. Ana Caroline é antifeminista, anti-PT e pró-Bolsonaro. Marlene, por sua vez, é feminista e #EleNão.

“Vai ter guerra que tem tanto canhão junto? Um homem grisalho, de óculos e queixo quadrados, sussurrou a frase irônica no ouvido de sua filha, que era hostilizada por manifestantes feministas diante do Fórum Eduardo Luz, em Florianópolis (SC), em junho de 2017. Ele não estava errado: guerra há.

O homem era o advogado Job Campagnolo. Sua filha é a historiadora catarinense Ana Caroline Campagnolo, recém-eleita deputada estadual pelo PSL — “o partido do Bolsonaro”, conforme ela define nas redes sociais.

Ela processou a historiadora Marlene de Fáveri, professora da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e sua ex-orientadora no mestrado, a quem acusou de intimidação, discriminação, ameaça velada, exposição discriminatória, humilhação na sala de aula e tentativa de prejudicá-la academicamente – ou, como foi simplificado, “perseguição ideológica e discriminação religiosa”.

Na manhã de 6 de setembro, Marlene foi surpreendida pela notícia de que o 1º Juizado Especial Cível de Chapecó (SC) considerara “improcedente” a acusação de sua ex-aluna.

“A justiça foi feita. A decisão representa uma vitória da liberdade de cátedra. Um importante precedente para enfrentarmos as perseguições a professoras e professores”, declarou a professora. Ana Caroline está recorrendo da decisão.

Agora Marlene contra-ataca: ela protocolou uma queixa-crime contra Ana Caroline na 3ª Vara Criminal da Comarca da Capital de Santa Catarina. A ação, que versa sobre crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria), corre sob segredo de Justiça. Marlene pediu para levantar o sigilo.

A acusação afirma que a ex-aluna expôs a professora como exemplo de “doutrinação ideológica” em diversos eventos e publicações nas redes sociais.

Segundo a advogada Daniela Felix, que representa Marlene, o somatório das penas pode ultrapassar 15 anos para a querelada.

Ana Caroline postou publicamente no Facebook no dia 22 de agosto: “A professora feminista/esquerdista que processei está requerendo em um processo-crime que este meu vídeo-denúncia seja judicialmente retirado do YouTube. Se você ainda não assistiu, aproveita”.

Pivô do novo processo, o vídeo é um depoimento de Ana Caroline à Comissão Especial do PL 7180/14 Escola Sem Partido, em Brasília, em 2017. Nele, a ex-mestranda relata os acontecimentos que a levaram a acusar a docente de “doutrinação”. Em 2014, ela também narrou a história no 1º Congresso Nacional Doutrinação Política e Ideológica nas Escolas.

Abertamente comprometida com a proposta do movimento Escola Sem Partido, Ana Caroline conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Estado onde Bolsonaro obteve a melhor marca no primeiro turno (65,8% dos votos). Ela teve 34,8 mil votos.

“A opinião pública sobre os processos é dividida. Quem está do lado dela já tem posição político-partidária. Quem está do meu lado, também”, definiu a parlamentar eleita.

As historiadoras simbolizam polos opostos na atual disputa política, que se acirra no segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad: Ana Caroline é antifeminista e anti-PT. Marlene é feminista e #EleNão.

Ana Caroline ironizou a hashtag nas redes sociais: “Bolsonaro é tão ícone que faz a esquerda temer a pronúncia de seu nome. Miliantes [sic], militantes e marginais que, outrora, não temiam a lei e a polícia, agora, temem o inominável. #EleNão será apenas um Presidente, será o terror dos canalhas e o pesadelo da escória. #EleNão tem que abrandar discurso, tem que arrochar ainda mais.”

Na casa dos 20 anos, Ana Caroline se define como “cristã e conservadora”. Ministrou aulas de história do feminismo no Burke Instituto Conservador, época em que trocou os óculos vermelhos (“muito PT”, disseram-lhe) por azuis.

Já Marlene, feminista na casa dos 50, prioriza a defesa da democracia e dos direitos humanos. Ela recebeu a comenda do Legislativo catarinense como símbolo de sua atuação contra a intolerância, indicada pela deputada estadual Ana Paula Lima, do PT.

Desde o início do imbróglio jurídico pairaram especulações de que o processo contra Marlene fora “orquestrado” pelo movimento Escola Sem Partido, idealizado pelo procurador paulista Miguel Nagib.

O caso lembra um tópico do site oficial do movimento que inclui orientações para “flagrar” doutrinadores: “Anotem tudo o que possa ser considerado um abuso da liberdade (…). Registrem o nome do professor o dia, a hora e o contexto. (…) E esperem até que esse professor já não tenha poder sobre vocês. Esperem, se necessário, até sair da escola ou da faculdade. Não há pressa”, diz a página.