Últimas Notícias > CAD1 > Unidades de pronto-atendimento terão serviços ampliados na Zona Leste de Porto Alegre

A falta de reagentes deixa os venezuelanos doentes sem diagnóstico de Aids

Remédios antirretrovirais estão em falta. (Foto: ONU/UNAIDS)

A falta de reagentes está deixando venezuelanos doentes sem diagnóstico de Aids. O ressurgimento de casos da doença, tão raros mundo afora, é reflexo da escassez e, quando não, absoluta falta de antirretrovirais, os remédios capazes de reduzir a quase zero a carga viral de portadores do vírus HIV e impedi-los de desenvolver a doença. A informação é do jornal Folha de S. Paulo.

“Há tão pouco medicamento e tão pouca resposta do governo que nós nos perguntamos se não estão tentando realizar um genocídio seletivo para simplesmente acabar com os casos de Aids na Venezuela, matando todos os pacientes”, diz a infectologista Maria Eugenia Landaeta, coordenadora do departamento de HIV/Aids do hospital Universitário de Caracas, o mais importante centro de tratamento da doença na Venezuela.

Nos últimos quatro meses, os quase 7.000 pacientes que se consultam no hospital não receberam nenhum tipo de tratamento. Alguns poucos, em casos mais graves, recebiam remédios que os próprios médicos, como Landaeta, levavam para o hospital.

Quase todos são doações de parentes de enfermos que morreram e decidiram dar os medicamentos que tinham em casa. “A maioria está vencida, mas é o que temos. Entre fornecer nada e algo, preferimos oferecer o que temos, mesmo que não seja o ideal.”

Landaeta trabalha há mais de duas décadas no Hospital Universitário e está cansada da situação crítica dos últimos anos. “Eles estão morrendo como moscas, e nós não temos o que fazer, simplesmente não temos nada a oferecer a não ser carinho”, diz. “Nem mesmo medicamentos para dor ou antibióticos nós temos.”

Na última semana, Landaeta contou quatro mortes. Essa, aliás, é a média semanal desde outubro do ano passado, quando o estoque de antirretrovirais chegou a zero.

Landaeta conhece só os números do departamento que dirige. Sobre o que acontece com pacientes do resto do país, ela e seus colegas têm apenas uma ideia vaga.

“O Ministério da Saúde não divulga nenhum dado há anos, não temos ideia de quantos pacientes com Aids há na Venezuela, quantos morreram no último ano e nem mesmo quantos infectados estão identificados”, afirma Martín Caballo, diretor da clínica médica de DST/Aids do Universitário.

“Trabalhamos no escuro”, diz. Desde 2014, quando a crise se acentuou, o governo venezuelano iniciou um apagão estatístico gradual.

Hoje é praticamente impossível obter informações oficiais básicas como o número de nascimentos, mortes ou vítimas de crimes violentos.

Todos os dados, inclusive os econômicos, como inflação, PIB ou custo de vida, são organizadas por fontes não oficiais e, muitas vezes, baseiam-se apenas em estimativas. “Sem essas informações não há como desenvolver políticas públicas de saúde, e o resultado é isso que estamos vivendo aqui”, afirma Caballo.

Em março, o governo venezuelano aceitou uma oferta de doação da Organização Pan-Americana de Saúde do antirretroviral Acriptega por três anos, mas o hospital recebeu só um lote que permite atender os pacientes por três meses.

Medicamento de última geração, o Acriptega apresenta resultados muito satisfatórios em um grande número de pacientes, mas não em todos.

“Acreditamos que 60% de nossos pacientes poderão se beneficia. Os outros 40% terão de testar. Estimamos que um terço dos pacientes que temos terá de ficar sem tratamento”, diz a infectologista.

A chegada do Acriptega não resolve os problemas estruturais da crise que vive não só o departamento de HIV/Aids do Universitário, mas todo o sistema de saúde venezuelano.

Falta de tudo em todos os lugares, e o apagão do início do mês pôs em evidência essa carência. Sem geradores, diversos hospitais ficaram às escuras e mais de duas dezenas de pacientes morreram por não haver energia para manter os equipamentos ligados.

“É uma situação crítica. Muitas vezes identificamos novos pacientes de Aids nas consultas ambulatoriais ou em testes rápidos que nem sempre dão um resultado confiável”, conta David Flora, médico que atende no Universitário. “Nem mesmo o Elisa 3, uma versão antiga do teste mais confiável, nós temos disponível. Não temos nada.”