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A Polícia Federal gravou ex-deputado comprando uma testemunha

Marcio Junqueira tentou que testemunha mudasse depoimento. (Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados)

A PF (Polícia Federal) monitorou por 60 dias o ex-deputado Márcio Junqueira (PROS-RR) e chegou a flagrar o momento da entrega de dinheiro a um ex-assessor do senador Ciro Nogueira (PP-PI), José Expedito Rodrigues. O pagamento, gravado em uma lanchonete do shopping Conjunto Nacional, em Brasília, teria servido para saldar despesas pessoais do ex-assessor do presidente nacional do PP. A propina tinha o propósito de convencer Rodrigues a alterar o depoimento que deu à PF, implicando Nogueira e outros parlamentares investigados na Operação Lava-Jato.

Após receber o dinheiro, Rodrigues entregou os valores para a PF. Em uma das entregas, agentes da PF acompanharam o momento em que Junqueira passa na casa do deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE), conhecido como Dudu da Fonte.

Ao todo, a PF flagrou duas entregas de dinheiro, que somaram R$ 6 mil, além de ter identificado o pagamento do conserto do carro de Expedito, por meio de transferência bancária de Junqueira. Também comprovou a quitação de outras despesas pessoais. Ao longo dos 60 dias em que foi alvo da ação controlada, Junqueira teve seus telefones grampeados e chegou a ser monitorado por policiais, inclusive, durante viagens para os estados de São Paulo e Roraima.

O STF também autorizou a quebra dos sigilos telefônicos de Junqueira, Ciro Nogueira e Dudu da Fonte.

Primeiro encontro

O primeiro encontro entre Junqueira e Expedito, que também já trabalhou no gabinete do ex-parlamentar, ocorreu em fevereiro deste ano, no aeroporto de Brasília. Na ocasião, Junqueira teria emprestado R$ 200 a Expedito para o pagamento de despesas pessoais. Desde então, eles vinham mantendo contato e se encontrando em Brasília.

Naquele mês, porém, Expedito procurou a PF para relatar que o ex-deputado estaria oferecendo dinheiro para que alterasse o teor de seu depoimento dado à PF, em setembro de 2016. Na ocasião, relatou repasses de propina a Ciro Nogueira e a outros parlamentares do PP no período em que trabalhou como motorista no gabinete do senador.

A partir daí, a PF começou a monitorar Junqueira, com autorização do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin. A primeira entrega de dinheiro para Expedito ocorreu em 26 de fevereiro, quando ele foi até a casa de Junqueira e pegou o dinheiro. Essa entrega foi gravada apenas em áudio, pois Expedito estava com uma escuta ao ir encontrar o ex-parlamentar.

Segunda entrega

Dois dias depois, a PF conseguiu flagrar em vídeo a segunda entrega de dinheiro, no valor de R$ 1 mil, que foi entregue por Junqueira ao ex-assessor em uma lanchonete no Shopping Conjunto Nacional, em Brasília. As imagens flagram Junqueira retirando o dinheiro do bolso e entregando a Expedito. Além das entregas, a PF captou vários diálogos entre os dois, por meio de escutas que foram colocadas em Expedito.

No pedido para deflagrar a operação, a PF lista seis diálogos na residência de Márcio Junqueira que considerou terem indícios de crimes para justificar a prisão de Junqueira e as buscas nas residências de Ciro Nogueira e Dudu da Fonte. Segundo o jornal O Globo, os diálogos são comprometedores para Junqueira, que em determinado momento sugere que Expedito elabore um documento afirmando que foi pressionado a prestar o depoimento em 2016 que relatou as propinas a Ciro Nogueira.

Nas conversas, o ex-deputado oferece ajuda financeira e promete a Expedito que ele poderia “mudar de vida”. Nas conversas há ainda referências de que Dudu da Fonte estaria vinculado aos pagamentos. Também há citações a Ciro Nogueira nos diálogos.

A PF também identificou pagamentos que considerou suspeitos, como uma transferência bancária de Junqueira para que o carro de Expedito fosse liberado de uma oficina, segundo os investigadores. Em determinada ocasião, Expedito chegou a entregar boletos com despesas pessoais, como dívidas de cartão de crédito, que somavam R$ 100 mil. Neste caso, porém, Junqueira não teria pago.

Para a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, o material das investigações indica que Junqueira sempre atuou “em interesse” de Ciro Nogueira e Dudu da Fonte. “Márcio Junqueira não fez pagamentos (de despesas pessoais do ex-assessor de Ciro Nogueira) ou reuniões para beneficiar-se a si próprio, fez exclusivamente em interesse do senador Ciro Nogueira e de Eduardo da Fonte, com ingerência absoluta destes dois”, afirma a PGR.

A defesa de Márcio Junqueira está analisando o teor do material das investigações antes de se manifestar. O advogado Antônio Carlos Almeida de Castro, que defende Ciro Nogueira, afirmou que, na ação controlada, “em nenhum momento há qualquer indício de envolvimento do senador com qualquer ilícito” e disse que ele “jamais tratou de pagamento a quem quer que seja e sempre colaborou com as investigações”. Dudu da Fonte nega as acusações.