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A referência Trump

Foram 720 dias marcados por polêmicas e polarização. (Foto: Reprodução)

Não. O governo Bolsonaro não começou bem. Os bolsonaristas podem achar que é má vontade. Não é. São apenas os fatos.

No conflito entre palestinos e judeus a diplomacia brasileira sempre se houve com equilíbrio, seguindo a linha geral das resoluções da ONU, sem atravessar os muitos limites da prudência em questão tão delicada. Agora, parece que está praticamente consumada a mudança da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, gesto simbólico que, entretanto, tem o significado de uma tomada definitiva de posição pró-Israel.

Diz-se que os governos do PT foram longe demais na simpatia pela causa palestina. Mas então cabia ao novo governo o direito de rever a posição, voltar atrás a um ponto razoável, restaurar a posição de equidistância, manter-se confiável para os dois lados do conflito. É precipitado, perigoso, desnecessário, fazer um giro de 180 graus naquele canto instável do mundo, a menos que tivéssemos altos interesses em jogo na região.

Também não faz sentido atrelar o Brasil à uma posição americana agressiva, da política Trump, no que diz respeito a Cuba e Venezuela. Foi categórica – e no âmbito da diplomacia – a recente decisão do Grupo de Lima, com o voto do Brasil e de mais 12 países, de não reconhecer o novo mandato de Nicolás Maduro.

No caso de Maduro, o novo governo do Brasil, meio belicoso e provocador, deu de mão beijada um valioso acréscimo às bravatas do tiranete: agora o Brasil virou sócio dos Estados Unidos na empreitada de derrubá-lo do poder. O que é uma tremenda bobagem: quem vai derrubar Maduro é Maduro.

Mesmo o fim do Mais Médicos poderia ter sido gradual, permitindo uma saída e uma reposição ordenada dos médicos do programa. O acordo do programa era entre Estados soberanos, Brasil e Cuba. Rompimentos assim, entre nações civilizadas, não se fazem seguindo estatuto de gafieira.

No imaginário tortuoso da direita, era ideológico tudo o que o PT fazia em todos os lugares e em expediente integral, mas o que o bolsonarismo faz não é. Trata-se de uma forma peculiar e caricata de ver o mundo.

Donald Trump é o mentor e o exemplo a seguir de todas essas manobras impensadas, canhestras. Com o Brasil, Trump não precisa dispensar tempo ou esforço de persuasão, não precisa combinar: ele faz, nós arremedamos. Assim, o presidente americano tem mais tempo para bater seu bumbo e criar suas coreografias.

Todo o governo que vem forte das urnas acha que encontrou a pedra filosofal e o caminho das pedras. E vai com muita sede ao pote. Bertrand Russel anda bem atual: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e os idiotas e fanáticos estão cheios de certeza”.

Parece que, quanto à China, o novo governo caiu na real: pararam de bulir com ela. Só comerciante em surto psicótico compra briga com o seu maior cliente. Para nossa sorte, Trump recuou de seu ímpeto inicial e agora ensaia, com a China, uma nova abordagem mais prudente e cooperativa. A doutrina está assentada.

Precisamos torcer para que Trump faça escolhas adequadas, porque as nossas relações externas tendem a ser mais comandadas de Washington do que de Brasília.

titoguarniere@terra.com.br

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