Terça-feira, 09 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de julho de 2018
“É como um zumbi aqui no Senado”, diz João Capibaribe (PSB-AP). Não é bem assim. Agora, ele age nas sombras. Aécio Neves (PSDB-MG), principal articulador do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que se tornou protagonista de uma das mais espetaculares debacles da vida política brasileira – saindo da condição de candidato a presidente com 51 milhões de votos e líder inconteste da oposição para a de réu no Supremo e colecionador de inquéritos –, no entanto, não está morto. Aécio ainda tem influência e poder a nível nacional e estadual – além de amigos poderosos. No último dia 21, um jantar reuniu os presidentes da República, Michel Temer (PMDB-SP), e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O interlocutor dos dois, no encontro fora da agenda, foi justamente Aécio. As informações são do jornal O Dia.
“Ele continua sendo uma liderança com poder de articulação em Brasília, importante na aliança que dá sustentação ao governo Temer no Congresso. Foi o PSDB do Aécio que articulou e criou as condições para o impeachment e foi a boa articulação entre PMDB e PSDB em Brasília, arquitetada por ele, que garantiu a manutenção de Temer na presidência”, diz o cientista político Felipe Nunes, do Centro de Estudos Legislativos da UFMG.
A escolha de Aécio como o interlocutor tucano dos dois líderes, em vez do presidente e candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, tem um motivo claro: os três discutiam o desempenho pífio da campanha do próprio Alckmin. Em momento nenhum, o fato de o tucano ser réu por corrupção no Supremo Tribunal Federal e responder a outros sete inquéritos entrou no cálculo. A possibilidade de um “golpe” no ex-governador paulista, com a troca pelo ex-prefeito paulista João Doria, que poderia juntar os partidos do centro, foi o prato principal da noite. “Aécio tem todo o interesse em eliminar Alckmin da disputa. Ele e José Serra são os seus principais adversários no partido”, diz o cientista político Rudá Ricci, que acabou de escrever um livro sobre a carreira de Aécio, que será lançado ainda esse ano.
“O ódio entre Alckmin e Aécio é visceral. E aumentou com o impeachment. O PSDB de São Paulo acha que o Aécio exagerou demais na ânsia de derrubar a Dilma, que o derrotou nas urnas numa eleição que era considerada ganha. O PSDB hoje tem uma péssima imagem. Isso está na conta do Aécio. Para os paulistas, ele é um carreirista que se utiliza do partido.”
De toda forma, a última semana trouxe duas boas notícias para o senador. Na sexta-feira, o ministro Gilmar Mendes, do STF, arquivou o inquérito que investigava o envolvimento de Aécio em propinas na estatal Furnas. A Polícia Federal não achou provas contra o senador. Gilmar foi gravado numa famosa conversa com Aécio na qual se comprometia a influenciar a opinião do “amigo em comum”, senador Flexa Ribeiro, para que ele apoiasse a posição do mineiro em um projeto contra abuso de autoridade, que tentava conter o ímpeto dos procuradores da Lava Jato.
Líder
Antes, no dia 19 de junho, uma pesquisa do DataPoder360 mostrou o tucano embolado no primeiro lugar na preferência do eleitor mineiro para a eleição ao Senado. Junto com ele, um emedebista (Bruno Siqueira) e, numa ironia do destino, uma adversária já conhecida: a petista Dilma Rousseff. Uma disputa que promete.
No entanto, Aécio ainda não definiu se vai disputar a reeleição. Geraldo Alckmin tem arrepios só de pensar na ideia. “É uma decisão de foro íntimo. O senador Aécio tem um capital político que deve ser respeitado”, diz o presidente do PSDB em Minas, deputado Domingos Sávio. “Mas não é novidade que o senador está voltado para a defesa nos processos que pesam contra ele. A nossa prioridade é a eleição de Anastasia.”
“Aécio detém o controle do partido, pelo menos em Minas. É compreensível que esteja fazendo um cálculo regional de manutenção de poder deixando em segundo plano a disputa nacional. É quase uma questão de sobrevivência”, diz Nunes.
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