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Aos 80 anos, o ator Anthony Hopkins revive o papel de Rei Lear em filme

O ator prossegue sua carreira iniciada há 60 anos. (Foto: Reprodução)

Nas colinas brancas de Dover, bem acima do mar, soldados transportam equipamentos e protegem as barracas do que parece um acampamento militar. Um homem aparece na frente de uma tenda, cabelos brancos, curtos, o rosto coberto por uma barba desgrenhada. “Podemos continuar?”, pergunta Anthony Hopkins.

Aos 80 anos, o ator prossegue sua carreira iniciada há 60 anos. E num dia gelado em novembro passado, ele gravou sua cena final no papel do Rei Lear, o novo filme produzido para a TV da tragédia de Shakespeare.

O filme estreou no Amazon Prime Video na sexta-feira (28). Rei Lear, na versão de Eyre, é ambientado na Grã-Bretanha contemporânea onde o rei é um ditador militar. O espectador de início será contemplado com vistas fantásticas de arranha-céus de aço e vidro e as pontes no horizonte londrino, antes de a câmera se fixar na Torre de Londres, símbolo do poder militar desde que William o Conquistador erigiu fortificações no local em 1066.

E o Rei Lear de Hopkins é um tirano, um homem duro, arisco, arrogante, acostumado à obediência e às reverências, que não desperta empatia. Ou, como o ator explicou resumidamente entre as tomadas, “um velho mordaz”.

É um choque ver Hopkins interpretando Lear; afinal ele renunciou ao palco (e Shakespeare na maior parte) há quase 30 anos. Mas o tempo, junto com lembranças familiares e a propagação de uma TV com melhor reputação e bem financiada, o animaram a assumir esse papel novamente.

Um Hopkins bem mais jovem desempenhou esse papel desafiador em 1986, numa produção do National Theater, de Londres, dirigida por David Hare.

“Foi uma produção genial, mas logo percebi que não seria um sucesso”, disse o ator numa entrevista por telefone de sua casa em Malibu, na Califórnia, no final de agosto.

Logo depois de Rei Lear, ele interpretou Antonio, ao lado de Judi Dench como Cleópatra. “E nesse ponto pensei: Existem atores apropriados que conseguem declamar os versos e eu não sou um deles. Eu sabia que estava no mundo errado”.

Em um e-mail após a entrevista, Hopkins falou mais sobre a sua decisão de deixar o palco, em 1989. “Acho que havia, e ainda há, dentro de mim, algo que me fazia ir contra a ‘seriedade’ de tudo que se refere a atuar no palco”, escreveu, acrescentando: “Um problema que eu mesmo criei foi a sensação de alienação, não estar à altura, não ser formado para isso – tudo isso refletia insegurança”.

Hopkins é mais conhecido por seus papéis em filmes, especialmente o que lhe proporcionou um Oscar, como o serial killer Hannibal Lecter no longa O Silêncio dos Inocentes, de 1991. Mas ele trabalhou em dezenas de filmes desde então (como Tito na adaptação de Julie Taymor de Tito Andronico) e retornou à televisão nos últimos anos estrelando a série da HBO Westworld.

Hopkins admitiu que algumas vezes pensou em interpretar novamente o Rei Lear. Quando o produtor Colin Callender o contatou há três anos convidando-o para o papel do grande ator britânico (Hopkins faz o papel do velho ator shakespeariano à beira de um colapso nervoso que interpreta o Rei Lear em um pequeno cinema durante a Segunda Guerra Mundial) numa produção de TV de Ronald Harwood, The Dresser, dirigido por Richard Eyre, ele se sentiu atraído pela oportunidade de atuar como Lear numa peça dentro da peça.

“Quando filmamos aquelas cenas, foi a primeira vez depois de quase 30 anos que Tony havia subido num palco”, disse Callender, cuja companhia, a Playground, produziu o Rei Lear com a Sonia Friedman Productions e a Lemaise Pictures Limited.

Richard Eyre dirigiu a peça em 1997 e hesitava em retomá-la novamente, mas finalmente foi convencido pela chance de dirigir Hopkins. Durante 18 meses antes de começarem os ensaios e as filmagens, ele disse ter recebido e respondido a e-mails diários de Hopkins sobre o papel.

 

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