Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019

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Bem-Estar “As mulheres são o futuro da humanidade”, diz médico vencedor do Nobel

O congolês Denis Mukwege fundou hospital que cuida de vítimas de violência sexual. (Foto: Reprodução/Youtube)

Um pronunciamento contundente e grave sobre o uso do estupro como arma de guerra. Denis Mukwege é um médico ginecologista mundialmente reconhecido por seu trabalho humanitário feito na República Democrática do Congo.

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2018, honraria que dividiu com a ativista pelos direitos humanos iraquiana Nadia Murad, ele foi o conferencista do quarto evento da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento em São Paulo. Numa fala repleta de alteridade que emocionou a plateia, o congolês resgatou a história do seu nascimento e falou sobre a motivação para cursar medicina e a necessidade de empoderar e assegurar direitos e paz a todas as mulheres do mundo.

Fundador do hospital de Panzi, criado em 1999 na cidade de Bukavu, Mukwege é graduado em medicina pela Universidade de Burundi. E, depois de testemunhar a precariedade no atendimento a mulheres, estudou ginecologia e obstetrícia na Universidade de Angers, na França.

De acordo com ele, seu trabalho principal é atuar a favor da vida. “O homem público que me tornei, apesar de tudo, em circunstâncias que não escolhi, é movido apenas por um único objetivo: ser um defensor da vida, estar a serviço dos vulneráveis, fazer e transmitir o bem em um mundo de inversão de valores tomado de assalto pela banalidade do mal”, declarou, iniciando a sua fala.

O médico relembrou os seus primeiros dias de vida, quando, por uma série de erros durante o parto, quase não sobreviveu em consequência de uma infecção generalizada no corte do cordão umbilical. Foi uma professora sueca, Majken Bergman, que trabalhava no posto de saúde local, quem salvou a sua vida com injeções de penicilina.

Quando ele recebeu, em 2009, o Prêmio Olof Palme, a mãe de Mukwege fez questão de que a professora estivesse presente na cerimônia e no jantar em Estocolmo. “Ela é uma mulher que deu um sentido à sua vida lutando contra a mortalidade infantil e pela educação. E, se eu estou aqui hoje, é graças a essa mulher corajosa que soube dar a sua vida aos outros. Minha mãe considerava essa mulher – que abandonou tudo na Suécia para viver em um bairro pobre de Bukavu, no leste da República Democrática do Congo, para ajudar e educar as crianças – como símbolo do próprio sentido da vida.” A infância do médico também foi marcada pela proximidade com pessoas que procuravam ajudar os outros, como o seu próprio pai, um pastor protestante.

“O coração de meu pai, sua compaixão e seu amor por seus fiéis, e sobretudo pelos doentes – que era o verdadeiro fio condutor da sua vida –, foram uma profunda fonte de inspiração para mim, para ajudar os outros, aqueles que têm mais necessidade. Desde cedo, ocupei-me dos doentes dando-lhes remédios quando meu pai, que não tinha recursos, apenas rezava por eles. Olhando para trás, percebo que foi nesta idade, aos oito anos, que decidi me tornar um ‘muganga’, que na minha língua materna significa ‘aquele que salva vidas’.”

Inspirado pela experiência paterna, incitado pela própria infância e indignado com a alta taxa de mortalidade infantil, especializou-se em pediatria e passou a trabalhar em Lemera, cidade localizada a 100 quilômetros de Bukavu. Diariamente, em média, dez mulheres vítimas de violência sexual são atendidas no hospital de Panzi. E o médico congolês se perguntou: ainda partilhamos da mesma humanidade?

“Não temos outra escolha a não ser responder com amor, cuidado médico, psicológico, assistência legal, econômica e reinserção socioeconômica das vítimas. Mas estamos longe de nos limitar a essa assistência. Também é preciso romper os tabus, as normas sociais, sair dos complexos de vitimização para que as mulheres se tornem atrizes de pleno direito na sociedade. Assim, além de todos esses cuidados, o empoderamento e a liderança das mulheres continuam sendo as únicas armas para transformar sua vitimização em vitória e seu sofrimento em força e em poder, para reencontrar o caminho da dignidade ultrajada por essas atrocidades.”

Salvar a vida das mulheres, por meio de sua vocação médica, é para o médico um dos sentidos de sua trajetória. Mas a sua luta é menor, quando comparada a outra. “A minha luta é menor em relação à coragem e à resiliência das mulheres que renascem de suas cinzas para continuar este longo caminho da liberdade, da justiça e da dignidade.”

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