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A Catalunha tem cinco dias para dizer se declarou independência, sob ameaça de intervenção

O presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, pediu diálogo. (Foto: Reprodução)

O convite ao diálogo proposto pelo presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, durante a declaração de independência na terça-feira (10), recebeu uma dura resposta de Madri, na Espanha. O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, deu um prazo até a próxima segunda-feira (16) para que o governo catalão esclareça se proclamou ou não a independência, e até a próxima quinta-feira para que uma possível declaração seja revertida. Embora não tenha mencionado a aplicação do Artigo 155, que suspende a autonomia da região, em seu discurso no Parlamento, Rajoy e o governo espanhol já sinalizam que podem recorrer à medida, e contam agora com o aval do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), até então reticente quanto à intervenção. O secretário-geral do partido, Pedro Sánchez, que se reuniu diversas vezes com Rajoy nos últimos dias, afirmou na quarta-feira que o presidente de governo se mostrou aberto a uma reforma da Constituição espanhola que, nas palavras do socialista, “discutirá o papel da Catalunha no país”.

A suposta imposição de uma independência unilateral mediante a utilização de poderes públicos confiados ao Parlamento, ao presidente e ao governo da Catalunha, e usados para impor uma decisão pré-estabelecida sem controle democrático constitui um ataque ao quadro de convivência instituído pela Constituição”, afirmou a vice-presidente do governo espanhol, Soraya Sáenz de Santamaria, em documento enviado a Puigdemont. “Como consequência, é dever do governo nacional ativar a aplicação do Artigo 155 caso o requerimento exigido pelo acordo atual não seja atendido”.

Já Puigdemont, em entrevista à rede CNN, voltou a convidar o governo espanhol para o que classificou como “um diálogo sem pré-condições”, mas destacou que as manifestações em favor da independência catalã não podem ser ignoradas por Madri.

Não se pode ignorar o fato de que qualquer diálogo e negociação deve partir do reconhecimento de uma realidade: a relação entre a Catalunha e a Espanha não está funcionando e há uma maioria do povo catalão que quer que a região se converta num Estado independente”, afirmou o presidente catalão. “E quer fazer isso de acordo com o Estado espanhol.”

O porta-voz do governo catalão, Jordi Turull, tentou baixar a poeira e disse que a declaração de independência foi “um ato simbólico”.

Todos assinamos um pacto de declarar a independência. Era algo que deveria ser feito inicialmente no Parlamento catalão”, afirmou Turull. “Nosso compromisso é irrefutável, não queremos enganar ninguém. Veremos agora se é possível fazê-lo de maneira dialogada e acordada. Até agora o diálogo com o Estado espanhol se deu por meio de intimações judiciais, repressão e cassetetes. Acho que o povo quer que se faça política.”

Para o deputado Ferran Civit i Marti, da coalizão Juntos pelo Sim, que comanda o Parlamento catalão, a decisão do governo regional que deixou muitos manifestantes favoráveis à independência frustrados nas ruas foi um passo acertado.

Foi como um pênalti batido por Pelé. Houve uma paradinha” afirmou ao jornal O Globo o parlamentar. “Sei que muitos esperavam uma postura mais combativa, mas esse é um processo que não se faz da noite para o dia. Primeiro nós temos que reconhecer a independência, para depois, com diálogo, podermos fazer dela uma realidade.”

A frustração também atingiu companheiros de Parlamento. Na terça-feira, integrantes da Candidatura de Unidade Popular, integrantes do bloco separatista, expressaram incômodo com a decisão de manter a independência em suspenso. Civit, no entanto, minimizou as desavenças no Legislativo.

Muitas vezes, nem todos vão ver tudo da mesma forma, ou escolher as mesmas palavras para se expressar. Foi uma pequena pedra no caminho, mas isso é parte do processo. Não há racha. Continuamos alinhados”, afirma, destacando que os planos do PSOE de reformar a Constituição não animam os separatistas catalães. “Já perdemos todas as esperanças com os socialistas, que estiveram 20 anos no poder e não se preocuparam com reformas constitucionais. Rajoy e o Cidadãos [partido de orientação anti-independentista] não contemplam essa possibilidade, e ainda que haja uma reforma, não há qualquer garantia de que ela traria benefícios à Catalunha.”

Separatista

Diante de uma provável aplicação do Artigo 155, e da inevitável resistência separatista, o deputado não duvida que confrontos entre policiais espanhóis e manifestantes catalães semelhantes aos vistos durante a realização do referendo no dia 1º de outubro voltem a acontecer, mas destaca que as ações do governo para reprimir a votação ampliaram a percepção mundial para a questão catalã.

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