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Certo de que não sairia logo da cadeia, o ex-presidente Lula planejou todos os passos de sua prisão e organizou uma despedida de olho na História

Lula se entregou à Polícia Federal no último dia 7 de abril. (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Quando sua prisão foi decretada, Luiz Inácio Lula da Silva estava fechado em uma sala do instituto que leva seu nome, em São Paulo. Conversava com um deputado do PT e com a mulher dele, que queria dar um abraço no ex-presidente. Por um momento desconectados do noticiário, mantinham-se alheios à informação que se espalhava pelo País.

Àquela altura, ainda estavam no local alguns assessores de Lula e três aliados: a ex-presidenta Dilma Rousseff, a senadora e presidente do partido, Gleisi Hoffmann (PT-PR), e o ex-governador Cid Gomes (PDT-CE). Concordaram que seria melhor esperar o retorno dos advogados para falar com o petista.

Dentro do imóvel em que comandou as principais articulações políticas da esquerda desde sua saída do governo, em 2010, Lula foi o último a saber que seu destino estava selado.

Coube a Dilma interromper a conversa amena do petista com o deputado. Ela entrou na sala sem bater e parou em pé ao lado do sofá escuro no qual seu padrinho político se acomodara. Em seguida chegou Gleisi. Não precisaram falar nada. O ex-presidente se levantou e as acompanhou até outro recinto, onde recebeu a notícia da boca de seus defensores.

Embora a prisão do petista fosse um fato anunciado, a maioria supunha que se tornaria realidade apenas uma semana depois. Às pressas, parlamentares e dirigentes do partido foram ao encontro do ex-presidente para pôr em marcha ao menos parte do plano que Lula já havia elaborado para fazer de sua detenção uma despedida histórica.

O roteiro estava pronto, mas ninguém imaginava que precisaria começar a ser executado naquela noite de 5 de abril de 2018, um dia que havia começado com gosto de derrota. O maior revés da história do PT se consolidara pouco menos de 24 horas antes, quando a ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), proferiu o voto que abriu caminho para a prisão de Lula.

O ex-presidente não externou surpresa com o resultado. Tratando os aliados como ingênuos, disse que só eles tinham esperança de um desfecho diferente. “Eu vou ser preso. E não vão me prender para me soltar em três dias.”

Lula assistiu a pedaços do julgamento no Supremo. Entrava e saía da sala em que seus aliados estavam reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). Deteve-se por algum tempo somente durante o voto de Luís Roberto Barroso.

Não viu quando Rosa Weber, única incógnita naquela sessão, enfatizou que iria privilegiar a colegialidade. Rui Falcão, ex-presidente do PT, concluiu: “Já era”.

A magistrada decidiu seguir a orientação firmada pela maioria de seus pares em 2016, e não a convicção pessoal que expressara na ocasião, quando foi contrária ao cumprimento da pena a partir de condenação em segunda instância. Com a escolha, fez da prisão de Lula uma questão de tempo.

O PT calculava que o ex-presidente seria encarcerado somente após a rejeição do último recurso a que ele tinha direito contra a decisão tomada em janeiro pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

O veredicto, de 12 anos e um mês em regime fechado, diz respeito a apenas um dos seis processos dos quais o petista é alvo. Neste caso, foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro — os juízes entenderam que Lula recebeu um triplex no Guarujá (SP) da construtora OAS como forma de retribuição a vantagens obtidas pela empresa em contratos com a Petrobras.

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O dia seguinte ao do julgamento foi tomado por reuniões no Instituto Lula. A maior parte dos aliados do petista saiu de lá por volta de 17h a fim de iniciar os preparativos para os atos que marcariam seus últimos momentos de liberdade.

Não deu tempo. Às 17h50min, num lance inesperado, o juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão; Lula seria o primeiro ex-presidente detido por crime comum.

Nos dias que antecederam o decreto da prisão, Lula ouviu uma série de sugestões. Houve desde apelos para se asilar em embaixadas de países simpáticos a sua causa até a proposta de sair de cena após um grande ato em Garanhuns (PE), sua cidade natal, rodeado por nordestinos.

O ex-presidente ignorou os mais radicais, como fez ao longo de toda sua vida. Decidiu que, após a ordem de prisão, se acantonaria no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, entidade que comandou nos anos 1970 e que o projetou como personagem da política nacional. Transformaria o local num bunker cercado por militantes de diversos partidos, bem como de movimentos sociais e sindicais.

Sua principal preocupação era com a imagem daquele momento. Queria deixar para a posteridade a sensação de que estavam levando para a cadeia o maior líder popular da história recente do País.

O PT, entretanto, não conseguiu dar a Lula o cenário que ele desejava. Surpreendido pela rapidez de Moro, o partido não pôde arregimentar militantes de outros Estados.

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