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Chamas e demências

Os ministros general Heleno e Sérgio Moro com o presidente Bolsonaro. (Foto: Marcos Corrêa/PR)

É do pensador romeno Emil Cioran este texto lapidar: “Em si mesma toda ideia é neutra ou deveria ser, mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada”. Cioran está falando das ideologias, das convicções absolutas, das certezas inabaláveis.

A economia dá pálidos sinais de recuperação. A saúde, a educação e a segurança pública andam de arrasto. O governo tropeça nas próprias pernas, a reforma da Previdência se complica. Só funcionam no Brasil a pleno vapor – além do fisco – as redes sociais.

No mar crispado das redes navegam as chamas e demências do sectarismo. Nestes tempos de Bolsonaro, milhões de internautas encontraram na internet o refúgio para o seu desencanto e suas frustrações. Ali eles expressam, de lugar seguro, escondidos no anonimato, sem resposta ou mediação, as ideias da direita rombuda, do conservadorismo de casca grossa, do moralismo justiceiro.

A internet é um lugar de vociferações, insultos e linguagem chula. O “filósofo” Olavo de Carvalho, do seu sítio de Virgínia, EUA, exporta palavrões a granel, dirigindo-os a inimigos reais e imaginários, e, não raro, até para aliados recentes, que não lhe prestam as homenagens que ele julga merecer. A turba segue o guru, e todos aderem pressurosos ao enxovalho geral.

Os textos curtos engendram argumentos mutilados e comentários iracundos. A julgar pelos erros de português, a maioria deles nunca leu um livro até o fim. No seu mundo pequeno não há nuances, ou se é preto ou se é branco, aliado ou inimigo. Só trocam ideias com aqueles que pensam igual: para o restante, desaforo neles. Recusam de plano qualquer argumento que possa abalar suas inabaláveis certezas. Os fatos não conferem com as suas opiniões resolutas? Danem-se os fatos.

Para as hordas bolsonaristas os males a combater são a esquerda e a corrupção. Os inimigos são os políticos, o Supremo Tribunal Federal, a imprensa. Desprezam a democracia, a diversidade, o pluralismo. Os seus heróis são os Bolsonaros, os procuradores da Lava-Jato, o juiz Bretas, o agora ministro Sérgio Moro, o guru da Virgínia, Carvalho.

Já era assim antes, há bem pouco tempo, de mão trocada, porém de forma menos escrachada, nos anos do PT – que, diga-se – ainda permanece com suas chamas e demências particulares.

A vitória de Bolsonaro criou essas novas milícias, que enlouqueceram e incendiaram de vez o ambiente. Fazem vista grossa e culpam os outros pelos erros do governo, atacam de pronto quem se atreve a dizer que o rei está de chinelo de dedo e vestindo uma camisa pirata de time de futebol. Nada os detém, nada diminui o seu ímpeto, o tom estridente das suas proclamas, a virulência de suas palavras.

“Faça a guerra, não faça o amor” parecem dizer, como “hippies” pelo avesso. Estão consumidos pela epilepsia de Cioran. Querem mais porrada, radicalizam, e combatem tenazmente quem faz acenos de paz e pede calma. Isolam e batem pesado naqueles que ousam dizer que nesse clima nada se constrói, e que nesse filme todos morrem no final.

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