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Cientistas ainda levarão um ano para ocupar a base do Brasil na Antártida e temem falta de verba para pesquisas

Com 4.500 metros quadrados construídos por cerca de R$ 100 milhões, a Estação Antártica Comandante Ferraz ainda precisará testar os sistemas no limite das condições de uso e segurança. (Foto: Marinha/Divulgação)

Sete anos depois de ter sido destruída por um incêndio, a base para pesquisas científicas na Antártida deve ter a reconstrução concluída no final deste mês, mas ainda levará um ano para ser ocupada por pesquisadores.

Com 4.500 metros quadrados construídos por cerca de R$ 100 milhões, a Estação Antártica Comandante Ferraz ainda precisará testar os sistemas no limite das condições de uso e segurança.

Cada disjuntor dos 200 quadros de luz precisará ser verificado, por exemplo, e os quatro geradores serão exigidos ao máximo, em diversas manobras, para garantir que a estação não fique sem energia nem por um dia.

Só depois seus 17 laboratórios começarão a ser ocupados. A inauguração oficial está marcada para o começo de 2020, um atraso de dois anos em relação à data prevista, mas cientistas acreditam que só em 2021 a estação esteja em condições adequadas de uso.

A demora, porém, não é o que mais afeta a pesquisa brasileira no continente, na avaliação do principal glaciologista (especialista em geleiras) do País, o professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Jefferson Cardia Simões.

“A estação é a casa do Brasil na Antártida, a manifestação de interesse político. Mas, cada vez mais, a ciência não é feita na estação, e, sim, em acampamentos temporários, nos navios ou com robótica.”

Segundo Simões, não mais que 30% das pesquisas usavam a estação antes do incêndio em 2012, e mesmo essas não pararam. O pesquisador da UFRGS lidera um dos 17 projetos aprovados no final de 2018 em chamada pública do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Mais do que a ausência de base física, o problema é a instabilidade de financiamento, na opinião não só dos próprios cientistas mas de membros da Marinha (que administra a logística e a estrutura física) e de pesquisadores que estudam o Programa Antártico Brasileiro (Proantar, principal instrumento de execução da política antártica nacional), como o pesquisador do Ipea Israel de Oliveira Andrade.

Estudo coordenado por ele mostra que a fatia destinada à ciência oscilou bastante nos últimos anos (veja quadro).

O professor da UnB Paulo Câmara, por exemplo, passou os últimos cinco anos na Antártida identificando os caminhos e meios pelos quais musgos e líquens do polo Norte chegam ao polo Sul, entre outros aspectos.

A pesquisa foi realizada em estações da Espanha, da Coreia e do Chile e em acampamentos. Mas o financiamento, que deveria ter sido pago em três anos, atrasou, e a última parcela do foi paga só
no fim do quarto ano.

“Precisei dispensar dois pesquisadores com pós-doutorado, que já trabalharam na Antártida, conhecem a logística e a ciência, publicam trabalhos, porque a bolsa acabou. O que eles farão agora? Vão vender pipoca? Mate gelado na praia?”, diz Câmara. “Já que é a ciência que mantém o Brasil com poder de decisão na Antártida, é preciso assegurar investimentos”, diz.

Esse poder de decisão vem do fato de que só países com atividade científica podem ter voz e voto no Tratado da Antártica, que regula as atividades no continente.

“São apenas 29 os países que decidem os destinos da Antártida, que é 10% do território do planeta, com 70% da água doce do mundo e imensas reservas intocadas de gás, minérios, petróleo”, diz Câmara.

“Mais do que voto, a palavra-chave talvez seja veto”, diz o contra-almirante Sergio Guida, responsável pela etapa final da reconstrução. Segundo ele, é de interesse nacional manter as normas atuais, que impedem a exploração comercial do continente.

Visão estratégica é a principal mudança na ciência brasileira na Antártida desde o incêndio da base, diz Simões.

“O País tem um planejamento de longo prazo, com dois focos: investigar questões pertinentes ao ambiente e à sociedade brasileira, com a melhor qualidade possível para reforçar o protagonismo brasileiro nos fóruns internacionais.”

Mas a questão do financiamento não está resolvida, mesmo que o edital do ano passado tenha garantido R$ 18 milhões pelos próximos três anos. “A verba foi a tábua de salvação da ciência antártica brasileira, mas daqui a quatro anos ninguém sabe o que vai acontecer”, diz ele.

O investimento foi liberado ainda durante o governo de Michel Temer, mas não há mudanças de diretrizes na gestão Bolsonaro, segundo a responsável pela área no Ministério da Ciência e Tecnologia, Andréa da Cruz-Kaled.

“A prioridade agora é construir os laboratórios em conjunto com a comunidade científica, atendendo suas demandas e propostas”, afirma a coordenadora de Oceanos, Antártica e Geociências.

Vários dos projetos aprovados nesse novo ciclo estudam o impacto da Antártida no clima brasileiro: correntes e fluxos meteorológicos do continente afetam o regime de chuvas e a temperatura do Brasil.

 

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