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Criado por brasileiros, um novo tipo de teste de sangue diz se o câncer começou a se espalhar pelos ossos

E é fundamental que qualquer lesão no osso seja detectada o mais rápido possível. (Foto: Reprodução)

Um câncer só é assim, um câncer, por alguns motivos. Um deles é a capacidade que suas células malignas têm de se desprender, pegar carona na corrente sanguínea e desembarcar em outro órgão qualquer. Ali, elas se abrigam e, tendo casa nova e comida à vontade, voltam a crescer desenfreadamente, formando clones do tumor original pelo corpo. O nome desse fenômeno, já sabe, é metástase. E, com uma frequência enorme, os ossos são o lugar em que as células doentes se instalam feito posseiras.

Para você ter uma ideia, entre 65% e 75% das pessoas com câncer de mama ou com câncer de próstata que apresentam metástases têm cópias desses tumores crescendo dentro dos ossos. Assim como, no mínimo, em um terço de todos os pacientes com metástase de cânceres de pulmões, de rim ou de tireóide, isso acontece no esqueleto.

Portanto, se o osso é uma espécie de endereço cobiçado por um câncer, o jeito é ficar de olho nele sempre que alguém é diagnosticado com a doença. Pelo sim, pelo não, ora, vá que ele se espalhe.

E é fundamental que qualquer lesão no osso seja detectada o mais rápido possível. Desse modo, os médicos conseguem evitar que o tumor conquiste mais e mais território em seu interior, barrando os prejuízos que isso implica. Pense, uma metástase óssea não é bolinho! Vem com muita, muita dor, para começo de conversa. Se a nova morada do tumor é uma vértebra da coluna, então, nem falo nada… Aí seu crescimento pode até mesmo apertar a medula, somando ao tormento sensações de dormência e fraqueza em tudo o que estiver abaixo do ponto da coluna afetado.

A invasão das células estranhas ainda acaba com o balanço no processo que qualquer osso tem de se destruir para se reconstruir – um desequilíbrio que acontece, por exemplo, na osteoporose. Mas esse problema, a osteoporose, é fichinha perto da metástase, que deixa tudo tão fragilizado a ponto de o osso se quebrar em atividades cotidianas bobas. Na verdade, o osso tomado pela metástase pode perder tanto, mas tanto cálcio que os níveis abundantes desse mineral no sangue vão provocar um enjoo sem fim e uma necessidade gigantesca de urinar a todo instante, capaz até de deixar o sujeito desidratado – é a tentativa do corpo de se livrar do excesso de cálcio pelo xixi.

Foi olhando para as semelhanças com a osteoporose que o biomédico Fernando Jablonka começou a pesquisar, na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, ainda no ano de 2010, lá atrás, se uma substância que qualquer laboratório de esquina consegue dosar com facilidade, a NTx – a qual também atende pelo nome pomposo de n-telopeptídeo do colágeno tipo 1 – poderia ser um marcador biológico, isto é, um dedoduro da metástase óssea. Era, então, uma bela hipótese.

Jablonka explica o que o motivou: “Os exames que são feitos para detectar a metástase nos ossos cedo, antes de ela provocar todos esses prejuízos, sempre foram caros, como o PET-scan e a cintilografia óssea”, diz ele. “Em termos de saúde pública, isso é um obstáculo”. Nesses anos todos de sua investigação, mesmo com o cenário melhorando um pouco – o PET-scan, por exemplo, começou a ser oferecido na rede pública há cinco anos –, o fato é que a tecnologia continua indisponível em muitos estados. Distante de muita gente, ao pé da letra.

“O paciente precisa se deslocar para fazer esses exames e é fácil deduzir a dificuldade disso. Além de muitas vezes faltar disposição física para viajar, há custos que não são contabilizados, como o do acompanhante que se afasta do trabalho”, fala Jablonka. Por isso, ele insistiu tanto na pesquisa com o NTx.

“Quando comecei a estudar essa substância, não era novidade que ela era um excelente marcador de reabsorção óssea”, relembra o cientista. De fato, já era dosada por todo mundo no conjunto de exames para avaliar o avanço de uma osteoporose e de outras doenças em que determinadas células dos ossos, os osteoclastos, promovem uma absorção afoita de minerais, eliminando áreas do tecido ósseo. Em pessoas com ossos saudáveis, outras células, os osteoblastos, preenchem completamente esses buracos com mais mineral, renovando tudo. Mas não é o que ocorre na osteoporose, por exemplo. Muito menos no câncer, que quer mesmo é se aproveitar do espaço criado para se alastrar.”

“Minha dúvida era até que ponto a dosagem do NTx poderia monitorar a metástase”, conta Jablonka. Para resolver a questão, em um primeiro estudo, realizado há nove anos, ele dosou a NTx em 62 pacientes com câncer e em 19 pessoas sem a doença, que serviram de parâmetro ou, como preferem os estudiosos, de grupo controle. Como era de se esperar, a substância estava normal em gente saudável e serelepe. Subia – de novo, como era de se esperar – naqueles indivíduos que tinham osteoporose. Mas, eis a notícia, subia mais ainda naqueles pacientes com câncer. E ia para as alturas de vez, feito um foguete, na ocorrência de uma metástase óssea.

Entenda: se os níveis apenas subissem, sem existir uma proporção clara entre as diversas situações, o teste colocaria no mesmo saco todo mundo que estivesse com um problema ósseo qualquer, e não necessariamente com um câncer ali, penetrado no esqueleto. “O que realmente me surpreendeu, porém, foi que a dosagem do NTx se alterava antes, muitas vezes, de a metástase se tornar perceptível, portanto, ela não só pode monitorar a saúde desses pacientes, mas antecipar a suspeita do problema”, explica o pesquisador.

Fernando Jablonka avisa, contudo, que a dosagem do NTx por si só não fecha o diagnóstico. Ela pode dar um ou outro resultado falso positivo – acontece pouco, mas acontece. “Ainda assim, é uma tremenda vantagem colher a amostra sangue de um paciente, sem tirá-lo de sua cidade – aliás, se ele estiver muito enfraquecido, sem tirá-lo nem sequer de casa – para colocar em uma ambulância ou em um ônibus para outro município, talvez, somente aqueles casos em que se nota alguma alteração no sangue”, afirma.