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Desde 2013, mais de cem meios de comunicação fecharam na Venezuela

Governo de Nicolás Maduro, ao centro, contribui para o cenário. (Foto: Reprodução/Twitter)

O jornal venezuelano Panorama saiu às bancas na terça-feira (14), pela última vez depois de 104 anos de circulação devido à falta de papel, uma situação que aflige quase toda a imprensa escrita local em meio à crise política e econômica que sufoca o país. Desde 2013, mais de cem meios de comunicação fecharam na Venezuela

“Tentamos prorrogar a existência de nosso jornal. Mas, apesar de tanto esforço, hoje, com o coração apertado, temos que apresentar a vocês nossa última edição impressa”, explica o editorial do jornal mais antigo do Estado de Zulia, no noroeste do país.

De linha independente, Panorama (baixe o PDF da última edição, em espanhol) era o único meio impresso ainda existente em uma região afetada há uma década por apagões de energia que se intensificaram em março passado, fazendo a outrora próspera economia local se contrair ainda mais.

“Antes de chegar a este ponto, batalhamos em busca de dólar para comprar os insumos necessários (todos importados: placas, tinta e o caríssimo papel). Também suportamos os terrível peso da crise econômica que sacode o país e que, segundo calcula o FMI, finalizará o ano com uma hiperinflação de 10.000.000%”, completou o diário.

O fechamento de 75% dos comércios de Zulia desde o ano passado, segundo dados do sindicato patronal Fedecámaras, provocou uma queda abrupta dos gastos de publicidade no jornal, que já havia limitado o número de cópias em circulação e, agora, se concentrará em sua versão web.

Teremos que migrar para plataformas digitais, nos reinventar para continuar informando e, assim, superar obstáculos”, disse Deivis Rodríguez, editor de política e economia com mais de 15 anos de empresa.

Panorama diz que suas finanças também se deterioraram devido aos contínuos aumentos salariais decretados pelo governo de Nicolás Maduro que, em sua opinião, apenas serviram de “combustível para a inflação” e não levaram em conta a “capacidade das empresas privadas para cumpri-los”.

Desde 2013, mais de cem meios de comunicação fecharam na Venezuela, incluindo 70 jornais. Naquele ano, foi criado o Complexo Editorial Alfredo Maneiro, uma corporação estatal que monopoliza o manuseio de papel jornal e que é acusada pelas empresas de mídia de atuar com viés político.

Em dezembro de 2018, a edição impressa do El Nacional, um jornal emblemático fundado em 1943 pelo escritor venezuelano Miguel Otero Silva, parou de circular.

Um dos últimos reajustes do salário mínimo anunciado pelo governo, em setembro daquele ano, previa um aumento de 3.600%, subsidiado em parte pelo chavismo. O Nacional não aceitou por temer que o benefício fosse vinculado a uma mudança na linha editorial do jornal.

Com isso, todos os salários da empresa foram reduzidos. “Do repórter ao diretor, todos ganham a mesma coisa”, diz o vice-diretor de redação Argenis Martínez. “Todo mundo aqui ganha o salário mínimo. É bem comunista”, ironiza. Na Venezuela de Maduro, o salário mínimo compra apenas 8% da cesta básica mensal.

Ao diário espanhol ABC, o diretor do Nacional, Miguel Henrique Otero, disse que o diário conseguiu uma sobrevida graças à “solidariedade” de outras publicações, que repassavam papel-jornal à empresa. Nos últimos anos, com a crise econômica, a situação se tornou insustentável.

No seu último mês, o jornal já tinha deixado de circular aos sábados e às segundas-feiras, não encontrava mais anunciantes e já não conseguia pagar salários. “Fomos perseguidos por 15 anos”, disse Otero. “Conseguiram silenciar rádios, TVs e fizeram desaparecer os jornais impressos independentes.”

Antes, em dezembro de 2016, também deixou de ser impresso o jornal El Impulso, o mais antigo da Venezuela, com 114 anos.

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