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É certo na democracia o melhor perder?

Em 1989, Collor, que vencera o primeiro turno, estava em plena campanha do segundo. (Foto: Renato Costa/Folhapress)

Faz tempo (28 anos), mas não tanto que esteja condenado ao esquecimento. Aconteceu em Brasília, na casa de um empresário.

Foi um almoço, num jardim, que dava a impressão de ter sido projetado por Burle Marx (se é que Burle Marx utilizava seu tempo criativo projetando jardins). Os verdes e as flores lidavam felizes com a clorofina e a gente tinha vontade de dar uma certidão estética dizendo, como no samba, “tudo está em seu lugar”.

Estávamos em fins de novembro, intervalo entre o primeiro e segundo turno da eleição direta (1989) para Presidente (Fernando Collor, que vencera o primeiro turno, estava em plena campanha do segundo, quando enfrentaria num mano a mano, a Lula).

Recebi um telefonema, no início da manhã, do candidato, dizendo-me que chegara a Brasília Vargas Llosa, ora em campanha presidencial no Peru, com uma pequena assessoria e que haviam combinado reunir-se em um almoço. Vargas Llosa – que vencera com folga o primeiro turno – sendo um liberal, acreditava que seria interessante afinar pontos conceituais, deixando encaminhada uma parceria construtiva para usa-la nos governos respectivos.

Dito isso, Collor convidou-me para compartilhar da reunião. Do lado brasileiro, além dele, estariam: um diplomata (Embaixador Coimbra), uma economista (Zélia Cardoso de Mello), um jornalista (Claudio Humberto) e um político (na ocasião, eu era Senador).

Vargas Llosa chegou, pontualmente, às 12 horas.

Vendendo simpatia e otimismo fez logo questão de apresentar elogiosamente o seu staff, também formado por um economista, um diplomata, um jornalista e um político.

Abraçaram-se (os presidenciáveis), disseram o quanto tinham torcido um pelo outro (e, reciprocamente, o outro, pelo um), o que era verdade. Tocou a Collor apresentar a sua equipe, da qual disse maravilhas – nem sempre verdadeiras mas oportunas – para empatar o jogo do peso disponível de massa cinzenta. Também se via estimulado por uma ou outra dose de Jack Daniels , oferecido logo ao brilhante escritor – era o que, para mim, ele continuava, e continua sendo – que aderiu, com moderação, ao “escocês”.

À mesa, Collor, cuidadoso, disse que a eleição brasileira naquele momento, estava completamente indefinida. Destacou a campanha dura que teria pela frente (salientou que não tinha base partidária e que esquerda, centro esquerda, subesquerda se haviam agrupado para enfrenta-lo, queixando-se – sem perder a pompa – de meios e modos com que o atacavam).

Mario (como, na condição de novo-íntimo, Collor passou afetivamente a tratar o “incaico”) assumiu a palavra e, com um sorriso largo, foi logo dizendo: “Fernando – consolidava-se a intimidade dos prenomes – no me quieras engañar. Vas a ganar. Estoy seguro”. E não será “por una cabeza, como nel tango de Gardel. Tendrás una gran vantaja”.

Logo, o visitante contou da sua eleição, dizendo que ia enfrentar, no 2º turno, um “chinito” (tratava-se do nissei Alberto Fujimori), interiorano. A seu juízo, um “desconocido”, prognosticando que assim como vencera, no 1º turno, “le voy a dar una paliza (sova) de votos”. Explicava que faltara muito pouco para liquidar a eleição no 1º turno (de fato, o nosso Mario chegou muito perto do percentual requerido).

A reunião durou três horas e Vargas Llosa nos fez entender que os seus acompanhantes eram futuros ministros e que, de certa maneira, ele já estava dividindo o seu tempo útil: metade para a campanha e metade preparando o Governo que – acreditava – iria assumir.

Quando partiu – sedutor contador de causas – deixou em todos nós um legado de simpatia e a sensação que almoçáramos com o futuro Presidente do Peru. Depois da saída de Vargas Llosa, Collor suspirando: “admirável a figura do Mario. Queria ter a certeza eleitoral que ele tem. Mas ele merece …”.

Na prática, Collor ganhou e o “chinito” – azarão do páreo – numa campanha suja elegeu-se e reelegeu-se no Peru. Envolvido em notória corrupção (onde não faltaram atentados, assassinatos, sequestros e negociatas), Fujimori foi processado. Fugiu para o Japão ao ser condenado à prisão perpétua.

Depois de alguns anos de exilio, voltou ao Peru e, agora, com quase 80 anos, cumpre sua pena. Está acompanhado do assecla “e manu longa” delinquente, o “coronel” (apelidado de Doutor), executor de todas as espécies de crimes previstos (e outros mais) no Código Penal, fiel ordenança de Fujimori.

Vargas Llosa nunca se curou da derrota que não acreditava poderia sofrer. Dizem que perdeu porque desprezou o risco que sempre existe nas eleições. Os historiadores acusam-no de presunçoso, com uma postura quase imperial no 2º turno.

Os peruanos sabem que erraram ao não escolhe-lo. Ele, hoje, sabe que errou ao não entende-los.

Conto tudo isso, para recomendar-lhes a leitura do mais recente livro de Vargas Llosa, intitulado “Cinco Esquinas”. É a sua confissão, o seu legado a sua vingança, a sua delação, não premiada, mas planejadamente crítica e raivosa, guardada por um silêncio de um quarto de Século. Tudo isso, usando um meio e que desfruta com maestria, a literatura. No livro, estão Fujimori e o “coronal” de corpo inteiro. Melhor, desnudados.

Com “absurdos” e maldades como a da eleição do “chimito” e da derrota de Vargas Llosa, a gente se apercebe como o voto, tido como apanágio (e é) da democracia, infelizmente, não tem um inquebrável e obrigatório compromisso com a seriedade e a competência.

Apesar disso, Churchill tinha razão quando dizia: “a democracia é um sistema cheio de erros e defeitos mas todos os demais são piores que ela”.

P.S.: Não me aventuraria a contar o livro porque não há dúvida que o nosso Mario (Prêmio Nobel) conta essa história muito melhor que eu.

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