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Empresas que ajudam viajantes a pedir indenização por prejuízos causados por companhias aéreas têm ganhado força nos últimos dois anos

Consumidores já recorrem a startups em casos de extravio de bagagem, atraso ou cancelamento de voo. (Foto: Reprodução)

Empresas que ajudam viajantes a pedir indenização por prejuízos causados por companhias aéreas – como extravio de bagagem, atraso ou cancelamento de voo – têm nascido e ganhado força nos últimos dois anos. A explicação está no potencial desse mercado.

Em 2017, 8,9% dos voos programados foram cancelados e 7,1% das viagens realizadas sofreram atraso de pelo menos 30 minutos, de acordo com os últimos dados compilados pela Anac (Agência Nacional de Avião Civil). Essas empresas miram, então, passageiros lesados mas não iriam atrás de seus direitos por acharem que teriam trabalho e gastos sem garantia de sucesso.

O diferencial desses serviços é eliminar o risco para o consumidor: ele não paga nada se, ao final do processo, não ganhar a indenização e nem honorários do advogado nem custos processuais. Ao mesmo tempo, isso impõe desafios à sustentação do negócio.

Criada em abril de 2017, a Quick Brasil busca o passageiro que não quer esperar pelo dinheiro: deposita R$ 1 mil na conta do cliente logo de cara, em um período de até uma semana depois de o caso ser aceito pela plataforma. Só têm direito ao reembolso viajantes que chegaram com um atraso superior a quatro horas no destino, por responsabilidade da companhia aérea. Pode ser qualquer uma que tenha escritório no Brasil.

Por exemplo, o voo pode ter atrasado só uma hora, mas, se isso fez a pessoa perder uma conexão e chegar mais de quatro horas depois do previsto, o caso é atendido pela empresa. Primeiro, o passageiro preenche as informações do voo no site, que checa sua elegibilidade. Em seguida, coloca seus dados pessoais e faz o upload dos documentos da viagem.

O cliente assina, digitalmente, um termo no qual cede à Quick Brasil o direito de receber um ressarcimento da companhia aérea. A partir daí, a empresa assume todos os riscos de conseguir a indenização. Em geral, tenta um acordo direto com a companhia antes de ir à Justiça. Se ganhar, embolsa tudo sozinha.

Conforme o advogado Thiago Naves, 37 anos, cofundador da Quick Brasil, o risco de perderem dinheiro existe, mas é calculado. “A gente pode não conseguir um acordo, mas isso vai acontecer poucas vezes diante de um universo bem maior de realizações.”

Um cuidado tomado pela empresa, por exemplo, foi não aceitar muitos casos no mesmo dia. A chegada à quantia de R$ 1 mil levou em consideração o risco envolvido na operação, o intervalo de tempo até conseguir a indenização e a média de pagamento (R$ 2 mil, segundo Naves).

Desafio de rentabilidade

O maior desafio do negócio é ter que pagar os consumidores meses antes de receber. Só agora a empresa está alcançando o ponto em que os valores recebidos nos acordos bancam os novos pedidos. A startup também oferece R$ 100 aos clientes que indicarem uma pessoa com um caso válido, o que lhe garante um crescimento de 10% ao mês. A Quick Brasil já atendeu mais de 2 mil pessoas e investiu em torno de R$ 2 milhões.

Outras empresas apostam num modelo no qual cobram uma porcentagem da indenização, só se ela for efetivada. O valor é dividido com advogados parceiros, que dão andamento aos processos. É o caso dos sites Não Voei, Indenizar e Voe Tranquilo, que também atendem viajantes com danos por extravio de bagagem.

As startups calculam valores maiores de compensação (em média, R$ 5 mil, pagos num período entre três e oito meses). As quantias podem variar de acordo com a situação: se o passageiro perdeu um dia de férias, um compromisso importante ou uma diária de hotel, por exemplo.

Fundada em março de 2017, a Indenizar cobra de 20% a 30% do valor do ressarcimento. Segundo um dos sócios, o publicitário Matheus Faria, 32 anos, a empresa tem sucesso em 95% dos casos.

A Não Voei, fundada em junho daquele ano, exige 30%. A empresa fez um investimento inicial de R$ 250 mil e já atendeu mais de 2 mil pessoas. “O grande desafio do nosso negócio é ter um fluxo de caixa que propicie o pagamento da operação, já que a gente só recebe depois de quatro ou cinco meses”, diz o sócio e publicitário Gabriel Motta, 32 anos.

Lançada em dezembro, a Voe Tranquilo ainda deve demorar para receber as primeiras receitas. Até agora, 200 pessoas se inscreveram na plataforma e dez tiveram seus casos aprovados. “Esse é um dos complicadores, trabalhar muito sem nenhuma entrada. Mas, com a experiência dos nossos parceiros nesse assunto, sabemos que o índice de sucesso é muito alto”, afirma o diretor-executivo da Voe Tranquilo, Roberto Lifschitz, 40 anos.

A empresa cobra 30% da indenização, cujo valor é destinado ao advogado responsável. O profissional remunera a empresa de acordo com os serviços prestados por ela na intermediação com o cliente.