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ENCONTROS COM O CAMARADA FIDEL

Fidel Castro morreu aos 90 anos em Cuba (Foto: AP)

Era um almoço oficial no Itamarati. Dia de posse do novo Presidente: o primeiro eleito pelo voto direto nos últimos trinta anos. À mesa, vários chefes de Estado (o Bush, pai, que na época vice, representando os Estados Unidos). A figura mais carismática deixara para confirmar sua presença na noite da véspera, enviando as informações de sua chegada num certo mistério que atendia a sua segurança e também a um charme político. Refiro-me a Fidel Castro, trajando seu impecável uniforme de campanha.

A mim coube assumir o Ministério que se teria o encargo de cuidar da Educação, da Cultura e do Esporte. Preocupava-me a responsabilidade que, a partir da manhã seguinte (quando tomaria posse) teria que assumir a responsabilidade de merenda de 37 milhões de crianças, pelo funcionamento de cerca de 50 universidades federais, pelo atendimento de um calendário proposto pelos atores teatrais, sem contar com as propostas do Secretário de Esportes (Bernard, ex-craque de vôlei).

Era neles que pensava, sem perder de vista o quadro formal de poder que estava ali, com divergências, civilizadamente, lado a lado. Afinal, estavamos na mesa da diplomacia. Ouviu-se o curto discurso de saudação e agradecimento do Presidente e, quando estava prestes a encerrar o banquete (Collor e Fidel fumaram charutos cubanos) um diplomata avisou-me que Fidel Castro manifestara interesse em conversar comigo (quer dizer, comigo propriamente não, com o Ministro da Educação brasileiro). Já havia uma sala reservada e o encontro duraria trinta minutos.

Foi dizendo que já estivera no Brasil varias vezes (dez, se não me falha a memória) inclusive visitara Presidentes, começando com Juscelino, mas que o Brasil era “muy grande” e diversificado, “cambiando” com muita rapidez, principalmente na política e na economia. Foi logo dizendo que era um curioso, simpatizava com o Brasil e prioritariamente interessado na Educação. Por isso, iria submeter-me a uma sabatina e deu uma gostosa risada.

Quis saber números atualizados de alfabetização e pós-graduação; como se dividiam as responsabilidades entre governos municipais, estaduais e federal, quanto do PIB tocava para educação; se havia (muito ou pouco) interesse pela carreira de Professor; se o Governo dava ou vendia livros para estudantes “del primer grado” etc etc.

De repente, fez-se sisudo. Franziu o cenho e quase em tom oratório (para a plateia mínima, constituída por mim, atônito, e dois seguranças, do lado de fora de uma porta entreaberta) afirmou: “meu esporte preferido não é o baseball como dizem, mas “el basqueball” que, inclusive, joguei, e bem, quando era jovem”.

E continuou: “el baseball, lós ianques (norteamericanos) como lo hicieron con tantas cosas buenas y nuestras, con la plata del capitalismo nos robaran llevando varios de nuestros mejores jogadores”. E foi só nessa ocasião que se referiu aos estadunidenses. Voltando ao seu ar de franqueza simpática, informou: “não lhe vou perguntar qual seu esporte predileto: sendo brasileiro será o futebol”. E completou: “não sei ainda o quanto queria saber sobre o Brasil mas sei bastante sobre os brasileiros. Tenho muitos amigos entre eles, mas não citou ninguém nominalmente.

Pedindo-me informações – sempre desconfiei que perguntava o que já sabia – queria saber das então chamadas Escolas Técnicas (que cursos ministravam, que valor prático e acadêmico tinha o diploma que dariam ao aluno quando se formava) e insistiu em aclarar se os cursos de Medicina eram ligados ou dependentes das Universidades ou dos Hospitais públicos. Antes da minha resposta, com ar orgulhoso, foi dizendo: “indo a Cuba, terá de visitar os nossos centros de pesquisas na área da Saúde. São iguais aos melhores do mundo”.

Olhei para o relógio e vi que estávamos perto dos trinta minutos de conversa. Foi quando ele transmitiu uma parte da mensagem que reservara para o encontro: “estou encantado com a festa que estão dando para a posse de um presidente eleito. Uma vitória da democracia. Nós, em Cuba, também cultuamos a Democracia, nos moldes que a interpretamos, junto com o nosso povo. Por educação e respeito diplomático, não me cabia qualquer comentário sendo transitório anfitrião de um Presidente de país amigo.

E justo na marca dos 30 minutos, de pé e com o braço sobre meu ombro, sentenciou: “falarei com seu Presidente, dizendo que vou convida-lo para visitar Cuba: levar algumas ideias e trazer outras”.
Não tardou uma quinzena e o Ministro da Educação cubano formalizou o convite. Visitei Cuba, cumprindo um programa tão exaustivo, surpreendente e até curioso quão útil. Se voltamos a falar com Fidel? Isso contarei na próxima crônica, a respeito.

(Extraído de algumas anotações que fiz na época e também de memória).

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