Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

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Capa – Caderno 1 “Eu não me arrependo de ter desejado governar a Bolívia por 20 anos”, diz Evo Morales

Ex-presidente boliviano Evo Morales deu entrevista na Cidade do México . (Foto: ABI/Fotos Públicas)

Evo Morales não se arrepende de ter tentado um quarto mandato e diz que esperava governar por 20 anos, até o ano de 2025, já que nessa data emblemática do bicentenário da fundação da Bolívia teria completado o ciclo de transformação política e econômica do país. Asilado no México, Morales considera que não foram as manifestações sociais ou as denúncias de irregularidades eleitorais que levaram à sua saída da Presidência, e sim um conluio para orquestrar um “golpe de Estado” fincado no racismo.

Em entrevista ao jornal mexicano El Universal, o agora ex-presidente rejeitou as denúncias de fraude eleitoral e disse que sua renúncia ao cargo não foi por covardia, e sim para evitar derramamento de sangue na Bolívia. Ele ressaltou que, até o domingo passado, quando renunciou, não havia mortes registradas por ferimentos de tiros. Três dias depois, já eram dez mortos.

O ex-mandatário assegurou que está pronto para voltar à Bolívia de imediato se a Assembleia do país não aceitar a renúncia que apresentou no domingo passado. Voltaria, disse, com objetivo de pacificar o país e organizar novas eleições, nas quais está disposto a não ser candidato. Morales culpa o governo dos Estados Unidos por estar por trás do “golpe” que o tirou da Presidência e diz que todas as mortes que acontecerem na Bolívia pela crise gerada por sua saída do poder são responsabilidade da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acusa de ter contribuído para o “golpe de Estado”. Leia alguns trechos:

O senhor era admirado por ter conseguido muitas mudanças na Bolívia, um crescimento econômico muito satisfatório, por ter levado um governo de igualdade ao seu país. No entanto, seus críticos destacam como um erro que tenha desejado um quarto mandato. Foi um erro ter concorrido novamente?

Depois de 13 anos, quase 14 anos, ganhamos no primeiro turno, e a direita nos rouba o triunfo. Na primeira candidatura à Presidência, em 2002 (quando Gonzalo Sánchez de Lozada foi declarado vencedor), eu não perdi, me roubaram. Nesta última também não perdi, me roubaram, ganhamos no primeiro turno. Em 2002, me expulsaram do Congresso; agora com este conflito, me expulsaram da Bolívia. Quando me expulsaram do Congresso, tinha apenas quatro deputados; voltei com 27. Agora que me expulsaram da Bolívia por razões políticas, voltaremos com milhões e milhões: estou convencido porque o povo está mobilizado contra o golpe de Estado. Não me arrependo, não, porque ganhamos as eleições no primeiro turno: não como antes, com mais de 50%, 60%, mas também quero dizer que agora alguns que votaram na direita ou em outros estão arrependidos. Como permaneci por tanto tempo me acusam de ditadura… mas agora o povo está vendo uma ditadura. No domingo que renunciei para que não agredissem meus irmãos, minhas irmãs… Queimaram um dia antes a casa de minha irmã. No que dia em que estava renunciando saquearam minha casa: esse é o racismo, eles semearam racismo. É mal visto ser indígena.

Vê, então, um golpe de Estado sustentado pelo racismo?

Totalmente racismo. Acabam de me informar pessoas próximas no país que a (presidente interina autoproclamada Jeanine Áñez) golpista está governando com tanques e helicópteros, dando tiros, por lá. Até domingo não havia nenhum morto e, até ontem, 10 mortos, isso é ditadura. Eles os fazem gritar “Evo cabrón”. Eles os fazem odiar os povos camponeses, indígenas, nativos, os mais humildes, com ódio, racismo; usam a Bíblia contra a família. Para mim, a Bíblia é algo sagrado que nos dá valores; oram para fazer ódio, rezam para discriminar, usam Cristo para marginalizar, para humilhar o povo. Eu sou católico e em nossa Constituição não há uma igreja em primeiro ou segundo lugar, somos um Estado laico; antes, era apenas reconhecida a religião católica; agora, não. Usam a Bíblia contra os mais humildades. Aqui se repete a história dos tempos da colônia, quando alguns bispos chegavam, pegavam a Bíblia e atiravam.

Quanto tempo acredita que deveria ter permanecido na Bolívia como presidente para ter consolidado por completo seu modelo?

Acredito que seria o bastante até o bicentenário (em 2025). Com mais cinco anos estaria consolidado o crescimento econômico, a integração da Bolívia e a universalização dos distintos programas sociais. Essa é a ideia da Bolívia com desenvolvimento, com igualdade social, com integração, com um tema de industrialização.

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