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Ex-atriz pornô se vê como personagem incômoda na Itália

Ilona Staller, nome de batismo da húngara naturalizada italiana que se transformou em ícone da indústria pornô, foi pioneira ao levar a pornografia à política. (Foto: Reprodução/Twitter)

Houve um momento em que a política italiana se aprumou rumo à ópera-bufa que a caracterizaria nos últimos anos, e ele se deu na campanha eleitoral de 1987. Cicciolina, a grande personagem daquela temporada, respira fundo e joga os cabelos loiros para trás: “Eu derrubei o senso comum do pudor, isso foi o mais importante”. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

Ilona Staller, nome de batismo da húngara naturalizada italiana que se transformou em ícone da indústria pornô, foi pioneira ao levar a pornografia à política. Nas décadas seguintes, em diferentes lugares do mundo, vários seguiriam seu exemplo – ela, contudo, conciliou o mandato com novos filmes.

Cicciolina fez história ao se eleger na legislatura que precedeu o fim da chamada Primeira República italiana – logo viria a operação Mãos Limpas, em 1992, e a política nunca mais foi a mesma.

Desde então, o país viria de tudo: do bunga-bunga berlusconiano ao modo de governar da praia, com mojito, um calção de banho e entre dançarinas, como fez neste verão o ex-ministro Matteo Salvini.

Sentada na grama do condomínio de prédios onde mora há mais de 40 anos, nos arredores de Roma, Cicciolina – ela prefere ser chamada pelo nome artístico, um diminutivo para se referir a alguém de modo carinhoso – sabe que foi protagonista de uma mudança cultural.

Levei uma nova onda ao Parlamento, e, mais do que do ponto de vista político, foi importante para a revolução comportamental e sexual”, disse, lembrando de como o país era “carola” e “hipócrita”.

Nascida em Budapeste, ela se mudou para a Itália em 1972, com seu primeiro marido. O sucesso começou numa rádio romana em que apresentava nas madrugadas um programa erótico. Depois, enveredou para os filmes adultos, tornando-se uma estrela mundial.

Gostava de ser a diva do pornô. Era uma forma de expressão livre do corpo e da sensualidade”, conta. Ela só não gosta das referências presentes hoje na internet de que transou com cavalos. “Lenda. Já notifiquei o Google várias vezes.”

Quem a levou para a política foi Marco Pannella, chefe do Partido Radical (hoje insignificante), cuja bandeira libertária e anticlerical coube perfeitamente no figurino da atriz e modelo, que já tinha flertado com a política (sem sucesso) no final da década de 1970.

A campanha de 1987 escandalizou o país com atos nos quais Cicciolina exibia os seios – era beijada e tocada pelo público – e um ursinho de pelúcia que levava a tiracolo. Defendia a descriminalização das drogas, os direitos humanos, educação sexual nas escolas, direito dos presos terem sexo na prisão e a proteção dos animais. Obteve 20 mil votos, a segunda mais votada do seu partido –analistas falaram em voto de protesto, o que ela rechaça: “É inveja!”.

A eleição causou um estupor nacional. Os primeiros a se manifestarem foram os intelectuais. O escritor Umberto Eco disparou: “Imoralidade por imoralidade, já vimos coisas piores”.

O cineasta Federico Fellini considerou a vitória um “sonho da sociedade italiana”. “Digo sonho não no sentido de uma realidade desejada, mas no sentido de algo profundo que surge involuntariamente e com o qual devemos lidar. Desse tipo de sonho que pode ser aterrorizante, o surgimento de Cicciolina tem um aspecto transgressor.”

Quando tomou posse, ela foi acompanhada por amigas do pornô (que mostraram os seios na entrada do Parlamento). Aquela seria a última legislatura em que reinou a Democracia Cristã, partido de influência católica que dominava a cena desde 1946 e que seria extinto com a Mãos Limpas.

Desalento

A ex-deputada não esconde o desalento. Desde 1992, quando não conseguiu ser reeleita, tentou voltar para a política em três ocasiões. Falhou em todas: para a prefeitura de Monza, no norte da Itália, para o Parlamento da Hungria e depois para a Câmara de Vereadores de Roma. “Minha política é diversa, é a política do outro. É a política do amor.”

Sobre o país natal, governado pelo ultradireitista Viktor Orbán, diz que os húngaros que votaram nele agora precisam aguentá-lo: “Na Hungria se alguém vai contra a situação, vai preso. E se você vai contra o seu presidente, não fazem o mesmo?”.

Ela só se impacientou ao ser questionada sobre os atuais políticos italianos: “Se falo de política italiana, me excomungam, não encontro trabalho. Até agora não fiz nenhum reality show na Itália. Por quê? Não é por causa do pornô, outras atrizes que não valem minha unha já fizeram. Por que não faço? Porque me tornei um personagem incômodo”.