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Finalmente emancipado por Lula, o presidenciável Fernando Haddad tenta se mostrar como um candidato livre

Candidato disse que o líder petista ficou indignado com a hipótese de indulto. (Foto: Divulgação/Instituto Lula)

Durante os 37 dias em que apareceu como vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na chapa do PT ao Palácio do Planalto, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad não deixou transparecer de forma clara – inclusive em entrevistas e sabatinas – as suas diferenças de posição com o partido. Tanto que o assunto não parece ter gerado uma crise interna, ao menos publicamente.

Ungido última na terça-feira por Lula à condição oficial de candidato oficial, após o esgotamento dos prazos oficiais para sustentar a tentativa do líder petista em ter o seu nome nas urnas, Haddad ganhou alguma liberdade. Porém, com pouco mais de três semanas para herdar os votos destinados originalmente ao padrinho político, tudo que o novo presidenciável não precisa é de um conflito com o partido.

Ele terá de formar um discurso que não atice os petistas, mas que de alguma forma seja coerente com o que falou no passado. De longe, seu principal drama na campanha será modular a crítica à gestão econômica do governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, sua antecessora no papel de candidato criado e sustentado por popularidade de Lula.

Diante dos impedimentos para ser duro com Dilma, há no núcleo de campanha quem defenda que Haddad aponte imediatamente o nome do ministro da Fazenda em seu eventual governo. Essa seria uma forma de sinalizar que os erros do passado não se repetirão. Um aliado afirmou que, se eleito, o ex-prefeito não escolheria um economista vinculado ao PT, pois prefere alguém de credibilidade no mercado financeiro e disposição para manter programas sociais – o economista Marcos Lisboa seria o nome.

Divergências

Haddad e o PT divergem em outros temas, como a noção de democracia, em especial em relação à situação da Venezuela. O presidenciável não costuma fazer defesa enfática do governo do presidente Nicolás Maduro, como é praxe entre seus correligionários.

Apesar de ainda evidentes, as diferenças entre Haddad e o PT já foram ainda maiores. Há dois anos, quando tentava se reeleger prefeito de São Paulo, ele viveu o seu maior conflito com a direção nacional da sigla, ao declarar que “golpe era uma palavra um pouco dura” para se referir ao impeachment de Dilma, porque lembrava o uso “de armas e tanques na rua”.

Nos últimos dois anos, a palavra foi a principal bandeira do PT para atacar o governo Michel Temer e sua tábua de sobrevivência na narrativa política para contrapor as revelações de casos de corrupção pela Operação Lava-Jato. Repreendido no episódio, Haddad reformulou seu discurso. Hoje está alinhado com a tese petista de que, sim, um golpe tirou o partido do poder.

Para poder mediar eventuais conflitos, Haddad deve continuar a contar com Lula. A ideia é que mantenha a rotina do cárcere: semanalmente, ele deve visitá-lo na prisão. Na prática, Lula continuará a coordenar a campanha presidencial, como sempre fez. Em seus últimos dias como o candidato que todos sabiam que não concorreria, o ex-presidente manteve intensa agenda com seus advogados.

Mesmo sem alterar a rotina diária (que incluiu cuidado com a arrumação da cela e corridas noturnas na esteira), Lula demonstrou abatimento tanto com o atentado contra Jair Bolsonaro quanto com a passagem oficial de bastão para Haddad. Quem convive com o líder petista afirma que ele sempre soube que teria de ungir Haddad.

Na versão destes, Lula fazia questão de ir até o limite da própria candidatura “para demonstrar que não estava entregando a luta”. Ainda assim, nos últimos dias os momentos de angústia se alternaram com doses de bom humor, com direito a piadas frequentes. Foi em pé, ao lado de uma fresta da janela de sua cela de 15 metros quadrados, que ele assistiu à formalização de Haddad como candidato a presidente.

Acompanhado por dois advogados que vivem na capital paranaense e o visitam diariamente, Lula ouviu animado o ex-deputado e advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (um dos fundadores do PT) ler a carta que ajudou a escrever horas antes e na qual abandonava sua candidatura e pedia votos para o ex-prefeito.

Era o fim de uma sequência de ações dirigidas pelo próprio Lula de dentro da cadeia, onde está desde abril, para lançar a candidatura de Haddad. Pela manhã, o ex-presidente se reuniu na mesa de quatro lugares onde recebe visitantes com os advogados Cristiano Zanin Martins e Manoel Caetano.

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