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Jornalistas franceses são acusados de criar um grupo para perseguir feministas nas redes sociais

Alguns dos participantes da "Liga do LOL" foram demitidos. (Foto: Reprodução)

A imprensa da França foi abalada nesta semana pela descoberta de um grupo on-line de profissionais da área dedicado à perseguição, por meio de piadas, a mulheres e minorias nas redes sociais. Diversas vítimas decidiram relatar suas experiências e o jornal “Libération”, de esquerda, anunciou a suspensão de dois de seus jornalistas, acusados de terem atuado durante anos como membros da “gangue” virtual.

Eles se autoproclamaram a “Liga do LOL” (sigla que significa “Laughing Out Loud”, algo como “Rindo Alto”). Entre os anos de 2000 e 2010, os jornalistas agrediram verbalmente diversas mulheres nas redes sociais, que agora decidiram revelar o caso e provocar um debate sobre o abuso de poder quando se tem visibilidade numa plataforma como Twitter.

Tudo começou com um grupo Facebook, criado pelo jornalista Vincent Glag, que escreve para o “Libération”, onde cerca de 30 pessoas, em sua maioria homens brancos, faziam piadas sobre mulheres feministas ou militantes antirracistas influentes na internet. Os participantes eram jornalistas, blogueiros ou publicitários.

De acordo com o podcaster Henry Michel, a “Liga do LOL” tinha a intenção de produzir “piadas que não podíamos fazer em público”. “Era divertido, besta, tinha esse lado de um observatório dos personagens do Twitter. Compartilhávamos links, fotos, fazíamos piada das pessoas”, explica.

O caso chocou o meio jornalístico na França, por revelar a hipocrisia de certos profissionais que, ao em vez de apoiarem as lutas por uma sociedade melhor, usavam a plataforma a qual tinham acesso para atacar, denegrir e zombar de colegas militantes. Alguns membros do grupo, como Alexandre Hervaud, disseram que já não fazem as mesmas piadas e que “mudaram”.

Em defesa das vítimas, a jornalista Iris KV retrucou que “mudar é bom”, mas exigiu um pedido de desculpas oficial da parte dos agressores. Ela publicou uma mensagem a “todos os membros da ‘Liga do LOL’, que agrediam feministas, indivíduos com problemas mentais, etc. (…) Vocês se esqueceram, mas as pessoas que sofreram têm uma memória melhor”.

Depoimentos

“Durante diversos anos no Twitter, eu e outras amigas feministas fomos alvo desses caras parisienses que tiravam onda da nossa cara”, disse Daria Marx ao “Libération”. “Eu era gorda e, por isso, não tinha o direito de falar. Um dia, um dos membros dessa ‘Liga’ pegou uma imagem pornográfica de uma menina gorda e loira, que poderia vagamente se parecer comigo e a compartilhou”, conta.

“Eles eram absolutamente infames no Twitter”, revela Nora Bouazzouni, jornalista do site FranceInfo: “Fui atacada com insultos, montagens fotográficas, GIFs pornográficos com minha cara e e-mails anônimos”.

Um desses personagens, que fazia parte do grupo, com quem tive uma relação, me fez acreditar que tinha Aids, para me assustar. São loucos”, relatou a repórter Capucine Piot.

Mélanie Wanga, cofundadora do podcast “Le Tchip”, que fala sobre “a experiência negra”, segundo o site do projeto, também acusou “A Liga do LOL” de atacar, além das feministas, indivíduos LGBT e militantes anti-racismo.

“Imaginem ser uma jornalista afroeuropeia falar de temas como apartheid e ter que ver coisas como essas 20 vezes por dia pelos colegas, durante vários dias”, lamentou Mélanie em uma postagem no Twitter, na qual ela mostra imagens de mensagens dos membros do grupo menosprezando ou zombando de seu trabalho.

Consequências

As acusações contra os membros da “Liga do LOL”, fatos ocorridos antes de 2013, já prescreveram, levando em conta o prazo para crimes de cyberbullying, que é de seis anos na França. Marlène Schiappa, secretária de Estado encarregada da Igualdade de gênero e da Luta contra as discriminações, disse que tentaria propor um prolongamento desse período.

A punição para esse tipo de delito é de 30 mil euros (R$ 127 mil) e pode chegar a 45 mil euros (R$ 190 mil) e três anos de prisão se a vítima for menor de idade ou vulnerável.

Mas a revelação do grupo de “perquisição online” já provocou consequências para alguns. O “Libération” suspendeu Alexandre Hervaud e Vincent Glad – esse último também perdeu sua colaboração com a revista “Brain Magazine”. Já o estúdio de podcast Nouvelles Ecoutes demitiu o jornalista Guilhem Malissen.

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