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Juiz criticou o Ministério Público Federal por editar transcrição de conversa gravada entre Michel Temer e dono da JBS

Ex-presidente era acusado de obstrução da Justiça. (Foto: Arquivo/PR)

A 12ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal absolveu de forma sumária o ex-presidente Michel Temer no processo em que ele era acusado de obstrução de Justiça por causa de uma conversa com Joesley Batista, dono do conglomerado JBS, dono da Friboi. Segundo a decisão, não houve crime no diálogo, que teria sido adulterado na transcrição do áudio.

Na avaliação do juiz Marcus Vinícius Reis Bastos, o MPF (Ministério Público Federal) adulterou conversas entre o então chefe do Executivo (2016-2018) e o empresário. O magistrado não viu na denúncia nada semelhante ao que o então procurador-Geral da República Rodrigo Janot divulgou à imprensa no dia 17 de maio de 2017.

Naquela ocasião, para supervalorizar a gravação feita pelo empresário Joesley em conversa com o então presidente da República, o procurador afirmou que o emedebista estimulara a compra do silêncio de Lúcio Funaro, apontado como operador de propinas.

A sentença também determinou o arquivamento do processo e a absolvição de Joesley Batista e Ricardo Saud, ambos da JBS e denunciados pelo mesmo crime.

Críticas

Ao criticar a denúncia do Ministério Público, Reis Bastos evidenciou que o MPF editou a transcrição do diálogo, adulterando o seu sentido:

“A prova sobre a qual se fia a acusação é frágil e não suporta sequer o peso da justa causa para a inauguração da instrução criminal. O diálogo quase monossilábico entre ambos evidencia, quando muito, bravata do então Presidente da República, Michel Temer, muito distante da conduta dolosa de impedir ou embaraçar concretamente investigação de infração penal que envolva organização criminosa”.

Em determinado trecho da decisão, o juiz compara a transcrição do diálogo feita no laudo pericial com a edição feita por Janot: “Por sua vez, a denúncia transcreve o mesmo trecho do áudio sem considerar interrupções e ruídos, consignando termos diversos na conversa, dando interpretação própria à fala dos interlocutores (…)”.

Depois de fazer um paralelo entre as versões do mesmo diálogo, o juiz aponta outras distorções: “No trecho subsequente das transcrições — principal argumento da acusação quanto ao crime de obstrução da justiça — a denúncia, uma vez mais, desconsidera as interrupções do áudio, suprime o que o Laudo registra como falas ininteligíveis e junta trechos de fala registrados separadamente pela perícia técnica que, a seu sentir, dão – ou dariam – sentido completo à conversa tida por criminosa”.

O juiz prossegue: “O diálogo tido pela acusação como consubstanciador do crime de obstrução de justiça (Lei nº 12.850/2013, art. 2º, § 1º), como se vem de demonstrar, não configura, nem mesmo em tese, ilícito penal”.

“Seu conteúdo, ao contrário do que aponta a denúncia, não permite concluir que o réu estava estimulando Joesley Batista a realizar pagamentos periódicos a Lúcio Funaro, de forma a obstar a formalização de acordo de colaboração premiada e/ou o fornecimento de qualquer outro elemento de convicção que permitisse esclarecer supostos crimes atribuídos ao grupo denominado ‘PMDB da Câmara’”, prossegue.

“Afirmações monossilábicas, desconexas, captadas em conversa com inúmeras interrupções, repita-se, não se prestam a secundar as ilações contidas na denúncia”, finaliza.

Com a palavra, a defesa

Para o advogado Eduardo Carnelós, da defesa de Michel Temer, a decisão “traz o reconhecimento de que o grande escândalo com o qual se tentou derrubar um Presidente da República baseou-se na distorção de conversa gravada, pois o conteúdo verdadeiro dela nunca indicou a prática de nenhuma ilegalidade por parte dele”.

Ainda segundo Carnelós, foi a partir dessa suposta distorção que outras foram praticadas, “para formular descabidas acusações contra um homem honrado”.

(Marcello Campos)