“Não tenho medo. Difícil é cair duas vezes de avião”, disse o sobrevivente da tragédia da Varig na França

Porta dianteira do avião, por onde Ricardo Trajano foi resgatado do avião da Varig. Acidente ocorreu próximo ao aeroporto de Orly, periferia de Paris, em 1973. (Foto: Arquivo pessoal)

O carioca Ricardo Trajano, à época estudante de engenharia civil de 20 anos, guardou dois anos de bolsa de estagiário para realizar um sonho: conhecer Londres. Fã de Led Zepellin, Cream e The Who, o jovem curtiria uns dias na metrópole onde as bandas favoritas ganharam o mundo. Na tarde de 11 de julho de 1973, faltava só o voo Varig 820 fazer escala em Paris e pronto: Ricardo desembarcaria na capital britânica.

Veio o susto: cinco minutos antes de o avião pousar no aeroporto de Orly, fumaça. Um incêndio obrigou o piloto do Boeing 707 da Varig a aterrissar, de barriga, em uma plantação de cebolas. Os gases tóxicos e o fogo mataram 123 pessoas. Onze sobreviveram, dez deles tripulantes. Dos passageiros do voo 820, só Ricardo sobreviveu.

Quarenta e cinco anos depois do desastre, Ricardo mora em Belo Horizonte e garante: não tem medo nenhum de voar. “Nunca tive problemas com isso. Até hoje, viajo ao Rio e prefiro pegar avião a encarar as estradas daqui”, disse, em entrevista.

Tanto é que, mesmo após quase três meses em hospitais em Paris e no Rio de Janeiro, fez questão de correr atrás do sonho de conhecer Londres. Como aquele voo comprado com o dinheiro do estágio sequer chegou ao destino, ele não precisou pagar por outro bilhete. “Fui até a loja da Varig e mostrei meu passaporte ainda chamuscado. Consegui outra passagem. Sou um cara teimoso”, contou.

Assim, em fevereiro de 1975, Ricardo e um amigo pousaram em Londres. Baixista, voltou da capital inglesa com um baixo que acredita ter pertencido a Jack Bruce, do Cream. “Era uma Gibson igualzinha que comprei em uma dessas lojas de segunda mão. Imagine, um jovem de 20 e poucos anos finalmente em Londres depois de ter caído de avião? Curti demais”, recordou.

A história da aviação relembra o voo Varig 820 como um dos mais trágicos. Difícil imaginar um Boeing 707, moderno para a época, sofrer um acidente tão perto do aeroporto de destino. O relatório final, divulgado pelo governo da França em 1976, até aponta falha elétrica como possível causa. Ainda assim, a principal hipótese indicada pelos mesmos investigadores fala em uma bituca de cigarro jogada na lixeira do toalete traseiro.

Ricardo estava nas poltronas traseiras do Boeing 707, perto do foco do incêndio, e foi um dos primeiros a perceber que algo estava errado. “Por instinto, tirei o cinto e me levantei dali. Eu queria ir até a cabine falar com o piloto sobre a fumaça, algo normal na época. Mas, quando cheguei na frente do avião, a fumaça era tanta que mal podia enxergar minhas mãos.”

Ricardo conta que percebeu a gravidade da situação ao notar que os comissários desmaiavam. Quase todos os ocupantes do avião perderam os sentidos com a fumaça tóxica. A perícia indica que o fogo só queimou as vítimas já no solo, quando muitas delas estavam mortas asfixiadas. “Por incrível que pareça, eu estava calmo. Mas chegou um momento, pouco antes de bater no chão e eu desmaiar, que passou um flashback na minha cabeça. Ali, comecei a me despedir da vida”, contou Ricardo. Ele foi resgatado, passou 30 horas em coma, mas sobreviveu.

Hoje, Ricardo dá palestras sobre resiliência e como manter a calma em situações de estresse. Sobre o resgate bem sucedido dos 12 meninos e do técnico de um time de futebol da Tailândia, presos em uma caverna, o sobrevivente comentou: “Eles sabiam meditar, e isso foi fundamental para que saíssem de lá com vida. O técnico foi fantástico para que os garotos praticassem a meditação, com bons pensamentos para manter a energia positiva”.

Deixe seu comentário: