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A nova fase da Operação Carne Fraca expõe os desafios de granjeiros

A Salmonella pullorum é tratada pelos granjeiros como um problema corriqueiro a ser combatido. (Foto: Divulgação)

Muito além da discussão sanitária levantada pela PF (Polícia Federal) em frigoríficos da BRF, a nova fase da Operação Carne Fraca deflagrada na semana passada, chamada de Operação Trapaça, trouxe à tona os desafios comerciais enfrentados por pequenos proprietários de granjas na região de Carambeí (PR), onde está localizado um dos frigoríficos investigados.

Embora tenha se tornado pivô nesta fase da operação, a Salmonella pullorum é tratada pelos granjeiros como um problema corriqueiro a ser combatido – mais para evitar prejuízos do que uma ameaça à saúde pública. Pelos contratos firmados com a BRF, os granjeiros recebem da empresa os pintinhos e os devolvem já crescidos, no ponto de abate.

Se uma granja engorda oito lotes de aves por ano e tiver de paralisar o processo para descontaminar o aviário, sua capacidade pode cair para seis lotes, comprometendo o faturamento do granjeiro. Seria essa, portanto, a maior preocupação em relação a esse tipo de salmonella. Foi também esse o motivo que levou a granjeira Cristianne Liberti a comprar uma briga em 2016 com a gigante de alimentos.

Naquele ano, quando o aviário de Cristianne foi contaminado pela salmonella, ela resolveu cobrar da BRF os custos da descontaminação e dos dias parados. Após muita discussão foi feito o distrato, poucos meses antes de a Operação Carne Fraca estourar, em março de 2017, envolvendo a BRF em um escândalo sanitário de dimensões internacionais.

Dias depois, Cristianne contou o caso da contaminação de sua granja à PF, atitude que hoje é vista por outros produtores como o estopim que teria colocado Carambeí na rota da Operação Trapaça. Foram identificados mais casos além do dela. O receio dos granjeiros resulta de um contrato com altas exigências. Produtores visitados pela reportagem mostraram procedimentos de segurança e higiene rigorosos, além de investimentos em instalações padronizadas.

Para entrar no aviário, é preciso trocar os sapatos ou descontaminá-los pisando em uma bacia de cal. Se o produtor tiver outros animais, como cachorros ou ovelhas, deve mantê-los isolados. “Tem de ter uma bota para cada aviário, que é diferente da bota usada no quintal”, disse Cristianne.

Segundo ela, todo o investimento que fez na propriedade ficou empatado depois que a BRF encerrou seu contrato. Ela diz estar parada porque nenhuma outra grande empresa faz abate de frangos na região. Hoje, a empresária conta que ficou com dívidas no banco e uma disputa na Justiça contra a BRF.

Procurada, a BRF afirma que análises microbiológicas não identificaram salmonella no lote de 46 mil pintos recebidos por Cristianne. A empresa afirma também que a salmonella só afeta as aves.

A Operação Trapaça aponta que setores de análises do grupo e de laboratórios credenciados pelo Ministério da Agricultura fraudaram resultados de exames para reduzir os níveis da bactéria e exportar para países que têm controles mais rígidos. Foram cumpridos 11 mandados de prisão. O ex-presidente da empresa Pedro Faria foi solto na sexta-feira (09).

Não são apenas os granjeiros que temem os impactos das operações policiais. Trabalhadores do frigorífico e até a prefeitura de Carambeí estão receosos. Com cerca de 22 mil habitantes, o município tem forte dependência econômica da BRF.

Apesar de a cidade contar com unidades da JBS, da Lactalis e da Frisia, a BRF é responsável por R$ 6,7 milhões dos R$ 17 milhões anuais que Carambeí recebe de ICMS dessas empresas juntas. A BRF abate até 570 mil frangos por dia no município.