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França x Croácia: o incerto e o imponderável riem mais uma vez daqueles que ousam desprezá-los e tentam prever o futuro, ainda mais no futebol

O Estádio Luzhniki foi o palco da abertura do Mundial e será também o palco da grande final. (Foto: Reprodução)

O incerto e o imponderável riem mais uma vez daqueles que ousam desprezá-los e tentam prever o futuro, ainda mais no futebol. A contrariar todas as expectativas, a final do Mundial será disputada entre França e Croácia. Um confronto nem tanto surpreendente pela participação da seleção francesa, amparada por um punhado de explicações para seu sucesso recente, mas atípica pela chegada dos croatas, pela primeira vez na posição de finalistas. As diferenças entre os dois times são grandes no campo, assim como na estrutura que os levou à posição invejada pelas outras 30 seleções que começaram a competição em junho.

O jogo da seleção francesa não é vistoso. Nada de acumular estatísticas de posse de bola e troca de passes, como fizeram espanhóis e alemães. A França funciona à base de muita marcação no meio-campo, roubadas de bola e subidas em velocidade ao ataque. Mbappé e Griezmann dividem as rápidas jogadas de um sistema ofensivo que ainda tem Giroud, um pivô nem tão rápido, na frente. Kanté, Pogba e Matuidi fecham a intermediária com mais fôlego do que brilhantismo. Não existe mais a figura de Zinedine Zidane, um gênio que lê e distribui o jogo. A França de 2018 joga simples e joga rápido. Segundo time mais jovem do Mundial — com média de 25,4 anos —, era de esperar que a falta de maturidade se tornasse um problema. Que nada.

A Croácia também gosta do jogo no meio-campo, que pode ser traduzido para os fanáticos por táticas pelos números 4-3-3, um esquema mais arriscado. As estatísticas entregam seu recurso ofensivo mais perigoso: Modric e Rakitic estão entre os três jogadores que fizeram mais passes longos nesta edição, segundo dados do site Wyscout. Eles ficam cada um em um lado do campo e lançam bolas para o trio de ataque formado por Rebic, Mandzukic e Perisic. Eles espetam a área adversária e finalizam com pouquíssimos toques — como no primeiro gol croata na semifinal contra a Inglaterra. É a segunda seleção que mais troca passes, 3.362 no total, muito mais que a França, com seus 2.773, no sexto lugar do ranking.

No campo e nos bastidores, a final contrapõe um futebol racional e um futebol que se vale do improviso. A França chega à terceira final de Mundial, 20 anos depois de seu único título. No campo, houve exibições empolgantes de seus atletas — como o veloz e driblador Mbappé, o habilidoso Griezmann e os incansáveis meias Kanté, Pogba e Matuidi. Mas o brilhante pragmatismo dessa seleção treinada por Didier Deschamps é só a ponta de um trabalho que começou antes.

Os franceses deram reboot em seu futebol nos anos 1970. A seleção ficara fora de três edições até aquele momento — 1962, 1970 e 1974 — e de três edições da Eurocopa. Os resultados terríveis fizeram com que a federação francesa inaugurasse em 1972 o Institut National du Football, um dos primeiros centros de formação especializado em futebol no mundo. Foi um investimento primordial para as seleções que viriam a seguir. Ajudou a formar o time de 1998. Dos 11 titulares que jogarão a final deste domingo (15), sete treinaram lá: Pavard, Varane, Umtiti, Matuidi, Pogba, Giroud e Mbappé.

A França de 2018 é o produto do treinamento com metodologia e infraestrutura e a multiculturalidade. Mbappé nasceu em Paris com pai camaronês e mãe argelina.De novo destacado por seu futebol, os direitos do atleta foram adquiridos pelo Paris Saint-Germain em 2017 — primeiro por empréstimo, depois em definitivo.

A seleção croata não segue essa cartilha de futebol bem administrado. Não tem nada próximo dos padrões europeus — sobretudo franceses e alemães — em relação à gestão do futebol. Sua “organização” se parece mais com a bagunça dos clubes brasileiros.

A primeira campanha vitoriosa da Croácia veio em 1998. A seleção tinha no ataque Davor Suker, artilheiro daquele Mundial. Só foi derrotada pela França na semifinal. Hoje, aos 50 anos, o consagrado atacante é presidente da Federação Croata de Futebol. A federação não faz investimentos grandiosos em infraestrutura. Também não existe plano nacional de desenvolvimento do futebol. Ela chegou a contratar um diretor técnico para montar um projeto de longo prazo. Romeo Jozak foi demitido semanas depois.

A continuidade dos técnicos de futebol é uma raridade. Campeão nacional 12 vezes nos últimos 13 anos, o Dinamo Zagreb teve 17 treinadores. A seleção segue a inconstância. Seu primeiro técnico no ciclo do Mundial foi Niko Kovac, que caiu em meio às Eliminatórias. O sucessor, Ante Cacic, angariou descontentamento generalizado. A Croácia esteve perto de nem se classificar para o Mundial. Só conseguiu a vaga na repescagem. Nada disso inspirava uma finalista. Mas a Croácia chegou.

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