Últimas Notícias > Notícias > Brasil > Quase dois meses após a cirurgia na próstata, Michel Temer passa por novos exames. Conforme os médicos, ele se recupera bem

O presidente da Câmara dos Deputados torna-se decisivo para o destino do presidente Michel Temer: é ele que faz andar ou não os pedidos de impeachment

Temperamento tímido e capacidade de conciliação. (Foto: AG)

Aliados o descrevem como “tímido”, porém “articulado” e “conciliador”. Adversários dizem que é “inseguro”, “fraco” mas ambicioso. Nos tempos em que seguia de carro a caravana na primeira campanha a prefeito do pai, em 1992, amigos e parentes o apelidavam de “Fofão”, pela suposta semelhança com as bochechas do personagem que fez sucesso nos anos 1980, na turma do “Balão Mágico”. Quando instado a responder a uma pergunta mais embaraçosa, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, 47 anos, recorre ao mesmo tique paterno. Estica a cabeça na diagonal, como se a gravata lhe apertasse o pescoço.

Depois de cinco mandatos consecutivos em Brasília, são cada vez mais comuns as perguntas difíceis para o filho de Cesar Maia, prefeito que mais tempo governou o Rio, por 12 anos. Seja pelas implicações de Rodrigo nas delações da Odebrecht — que o identificava pelo codinome de “Botafogo”, seu time de coração — seja pelo protagonismo que ganhou ao se tornar o número 1 da linha sucessória da República.

Os Maia têm tradição no Rio Grande do Norte e na Paraíba. A família já elegeu três governadores, senadores e levas de prefeitos, deputados e vereadores nos dois Estados. Ironicamente, é o delgado ramo do Rio de Janeiro, e não o tronco do clã nordestino, que margeia o mais alto posto da política nacional.

Nesta semana, Rodrigo assume a presidência com a viagem de Michel Temer a Rússia e Noruega. Seu nome paira como ator pivotal em meio ao destino incerto do pemedebista no Planalto. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está prestes a denunciar Temer. Repousam na gaveta de Rodrigo pelo menos 19 pedidos de impeachment contra Temer.

Para um interlocutor, o deputado ouve menos os conselhos do pai do que os do sogro postiço: Wellington Moreira Franco, ex-governador do Rio, ministro da Secretaria-Geral da Presidência e escudeiro da tropa de choque de Temer. “Quem fez o Rodrigo presidente da Câmara foi o Michel através do Moreira. Na primeira e na segunda eleição”, afirma outro político, que já foi ligado ao grupo dos Maia no Rio.

Rodrigo é casado com Patrícia Vasconcellos Torres, mãe de dois de seus quatro filhos. Vem a ser neta do senador e deputado federal fluminense João Batista de Vasconcelos Torres (1920-1982) e filha do primeiro casamento de Clara Torres, mulher de Moreira Franco. Rodrigo é defensor da reforma da Previdência, mas a sogra chamou atenção em 1997 por ter pedido aposentadoria proporcional como funcionária no Senado, aos 41 anos, às vésperas da votação da reforma previdenciária de então. Depois, foi transferida para a secretaria da Casa Civil durante o governo Sergio Cabral.

O casamento de Rodrigo com a enteada de Moreira, em 2005, entrou para o anedotário político pela pompa — entre os convidados estavam três presidenciáveis tucanos: Aécio Neves, então governador de Minas, Geraldo Alckmin, de São Paulo, e José Serra, à época prefeito da capital paulista — e pela circunstância. Cerca de cem pessoas fizeram um protesto, em frente à igreja, contra a retirada pela prefeitura de camelôs e mendigos do Largo do São Francisco, onde se realizava a cerimônia.

Cesar Maia estava no primeiro ano do terceiro mandato e era pré-candidato do PFL à Presidência. O casório terminou em confusão quando os homens da Guarda Municipal e da Polícia Militar jogaram gás de pimenta e se atracaram com os manifestantes que estavam perto de abordar os noivos na saída. Entre os cartazes levados ao protesto pelos universitários um deles viralizou por pedir ao casal: “Não procriem”.

Além de Maria Antônia, de 11 anos, e o caçula Rodrigo, de 1 ano e meio, o presidente da Câmara tem mais duas filhas do primeiro casamento com Luciane Teixeira Alves – mais conhecida por Titi Lancellotti — que era jornalista do programa eleitoral de TV da primeira campanha do pai a prefeito. Da união nasceram Maria Beatriz, 20 anos, e Ana Luiza, 22 anos. Ambas foram criadas e moram com os avós Cesar e Mariangeles Ibarra Maia, detentores da guarda. O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes é padrinho da primogênita.

De Nova York, onde está trabalhando para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e para a chinesa BYD — maior fabricante de baterias e veículos elétricos do mundo, que tem fábrica em Campinas — Paes vê em Rodrigo um político de perfil distinto ao de Cesar Maia. “É um sujeito conciliador, articulador. Contrasta com o pai, que não tem nenhuma dessas características”, diz.

Em entrevista ao Valor, por ocasião da primeira eleição do filho à presidência da Câmara, no ano passado, Cesar Maia delineava as diferenças em relação a seu jeito mais tecnocrata, que começou a carreira como secretário de Fazenda de Leonel Brizola e foi deputado constituinte voltado para questões econômicas. “Nossas identidades políticas são distintas. Não é ideológico: é estilo. Rodrigo desenvolveu a capacidade de articular, de ouvir, tem paciência de fazer política”.

O pendor de Rodrigo para a costura política, porém, não é contraditório com a imagem de alguém tímido e até antipático, no primeiro contato. (AG)

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