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“O PT errou por não reconhecer a prática de corrupção”, disse senador petista derrotado

Jorge Viana disse que apesar dos resultados das urnas, não é hora de apontar culpados. (Foto: Arquivo/Geraldo Magelo/Agência Senado)

Derrotado em seu Estado, o Acre, o senador petista Jorge Viana falou sobre a necessidade de autocrítica pelo partido, que corre o risco de perder também a disputa presidencial. Para ele, o PT errou “de não reconhecer claramente que membros do nosso partido ou aliados praticaram corrupção”, disse, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

1- O que explica a onda conservadora que se viu no primeiro turno?
A gente está flertando no Brasil com aquilo que aconteceu nos EUA com a eleição do Trump. É assustador, eu acho que ninguém apaga fogo com gasolina. Fiquei triste de ver uma pessoa chegar no meu estado, pegar um tripé e dizer que ia metralhar as pessoas do partido que ele não gosta. Como é que ele vai pacificar o Brasil?
Eu sempre tive uma posição ponderada, sou muito crítico do PT, inclusive das alianças que fizemos. Eu nunca deixei de ver que nós temos uma falha no PT que é de não reconhecer claramente que membros do nosso partido ou aliados praticaram corrupção. Mas isso não justifica o que estão fazendo nem com o presidente Lula nem com outros líderes, e também não diminui as coisas bonitas que nós fizemos: a inclusão social, inclusão dos jovens na universidade, atenção ao trabalhador rural, crescimento econômico, pleno emprego. Não é o que eu quero, mas eu prevejo coisas muito ruim para o nosso País nos próximos anos.

2- Como o senhor vê essa nova composição do Congresso?
Eu sou muito crítico a essa composição atual. Ela que pariu o impeachment, dela que veio o Bolsonaro. Nós estamos em 2018 e não entramos no século 21. Mas agora vai ficar pior. Mas o que fazer? Eu me sinto entristecido como brasileiro em ver um horizonte tão sem esperança para a frente.

3- Ainda é possível ter uma virada no segundo turno?
Eu acho que de um lado tem o pior momento para a vida nacional, para esse transe coletivo que estamos vivendo. E do outro lado você tem o melhor candidato, não importa se é do PT, de que partido é. Ele é o melhor para poder estabelecer o diálogo e fazer essa travessia. Diante disso eu tenho que acreditar ainda que é possível, mas eu digo que numa hora dessas tem que ter uma grande união do Haddad, do Ciro Gomes, porque as pessoas estão vivendo um transe. As lideranças democráticas do País não podem ficar indiferentes, ou cada um de nós vai carregar um pouco dessa culpa.

4- O senhor falou em erros do PT. Quais?
Nós mudamos as políticas do Brasil, mas não mudamos a política partidária. Foi ela que nos tragou, a história de ganhar a eleição, fazer alianças. Não fizemos nada de diferente do que os outros partidos já faziam, inclusive o PSDB que dirigiu o país antes da gente. Mas o fato de o PT estar fazendo não tem justificativa e foi um prato feito para setores do Judiciário, da imprensa e para os nossos adversários tentarem apagar o PT do mapa e alcançarem o presidente Lula. E depois que começou o processo de destruição do PT não tinha mais o que fazer. Agora vamos ter que fazer depois de vencida esta etapa, porque a gente ainda está nela. Acho que o PT está tendo uma segunda chance, e eu espero que depois da eleição a gente faça uma mudança radical no jeito de fazer política.

5- O que poderia ser feito, num presidencialismo de coalizão como o nosso?
Nós ficamos reféns do que se chama de governabilidade. Foi ela que gerou o impeachment, foi em busca dela que a gente destruiu o segundo mandato da Dilma, é em função dela que o Temer chegou ao poder.

6- Como mudar isso?
Repactuando. Do ponto de vista da prática, nós temos que ser o exemplo. Já fomos o exemplo antes, mas deixamos de ser. E essa chance do Haddad eu sempre defendia que se ganharmos temos que ter o espírito do Nelson Mandela, de pacificar o País, de brigar até com os nossos para não ir no olho por olho. E a história vai ser implacável. Não fiquem do lado errado da história. A candidatura do Bolsonaro foi viabilizada pelo enjaulamento do presidente Lula. Ele foi impedido de concorrer e de dar entrevista.

7- No Acre, o PT perdeu o governo depois de 20 anos e o senhor não foi reeleito para o Senado. Por que esse desempenho tão ruim?
Depois que passa é um pouco mais fácil de entender. Nossos governos lá, seja eu, o Binho ou o Tião [Viana], nós demos contribuição extraordinária para o Acre e isso é reconhecido pelas pessoas. Isso é muito bom. Mas se o PT viveu esse drama todo no plano nacional, essa caçada, claro que o surgimento de uma candidatura como o Bolsonaro, a soma dos nossos erros e essa raiva ao PT afetariam lá. E acho que houve uma certa soberba. Eu falei: “não é hora de a gente querer ganhar tudo, temos que ter humildade”, e a decisão lá foi de querer ganhar tudo, as duas vagas do senado, o governo, bancada enorme. E o resultado foi péssimo, mas não é hora de apontar culpados. Agora tem que dar tempo ao tempo.

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