A condenação de Lula e a denúncia contra Michel Temer aumentaram as dúvidas de políticos e analistas sobre as eleições do ano que vem

Eventual candidatura do petista (E) pode afetar os planos de aliados do atual chefe do Executivo. (Foto: Ricardo Stuckert / Arquivo Instituto Lula)

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a votação em plenário da denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o presidente Michel Temer ampliaram as incertezas sobre o cenário eleitoral de 2018. Na visão de políticos, dirigentes partidários e analistas, ambos os fatos terão efeitos diretos na definição das candidaturas.

A intenção de Lula de concorrer, mesmo após ter sido sentenciado, pode “judicializar” a disputa, pulverizar a corrida, fragmentar o campo da centro-esquerda e interferir indiretamente na escolha do candidato da atual aliança governista, formada majoritariamente por PMDB, PSDB e DEM. Essa mesma aliança atravessa o seu pior momento, estressada pela possibilidade de Temer ser afastado do cargo e de os tucanos deixarem o governo.

Outros efeitos colaterais dessas crises deverão ser a multiplicação de candidaturas, o fortalecimento de nomes de fora da política e um possível arrefecimento do chamado “discurso ético” nas campanhas. Os analistas são mais cautelosos nesse aspecto. “A presença ou não do Lula, com o seu índice de rejeição, tem efeito direto no PSDB”, diz o cientista político Murillo de Aragão. “Sem ele, o prefeito paulistano João Doria se enfraquece na disputa.”

Se a sentença do líder petista a 9 anos e 6 meses de prisão, determinada pelo juiz federal Sérgio Moro, for confirmada na segunda instância, Lula poderá ser impedido, conforme a lei, de ser candidato. O recurso da defesa, porém, só deverá ser analisado no ano que vem.

A avaliação predominante, incluindo a de políticos de centro-direita, é de que o ex-presidente, mesmo condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, não pode ser considerado carta fora do baralho. A eventual absolvição em segunda instância, avaliam, fortaleceria a sua candidatura, pois daria respaldo ao discurso de que ele é vítima de perseguição política. Uma vez impedido de concorrer, seria um forte cabo eleitoral.

“Entretanto, é preciso lembrar que Lula está isolado dentro da esquerda e só venceu a eleição presidencial de 2002 quando se aliou ao centro”, pondera José Augusto Albuquerque, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo).

Temer

Com Lula em campanha, a aliança governista em torno de Temer – PMDB, PSDB e DEM – terá de trabalhar para evitar a fragmentação. Para eles, uma vez liberado pela Justiça para concorrer, Lula (atual líder nas pesquisas) tem grandes chances de chegar ao segundo turno, o que deixaria apenas uma vaga aberta para o campo da centro-direita.

Aragão e Cortez lembram que uma terceira força que se contraponha à polarização PSDB-PT deverá ter boas chances no ano que vem. “Nesse sentido, dividir a base de Temer com mais de uma candidatura, por exemplo, pode deixar o PSDB fora do segundo turno”, afirma Cortez. Segundo ele, o mais prudente para os governistas seria buscar um nome que represente a atual coalizão.

O problema é que o PSDB ensaia desembarcar do governo e vê como potencial candidato para 2018 o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele é o sucessor legal de Temer no Palácio do Planalto em caso de afastamento do titular da pasta.

Essa também é uma característica comum nos cenários traçados pelos políticos. Além do PP, DEM, PSDB e PPS, siglas que estiveram juntas em disputas eleitorais anteriores, hoje falam em lançar candidaturas, mesmo que avulsas.

O mesmo ocorre nos partidos da esquerda. Ao menos oito legendas consultadas trabalham com a possibilidade de lançar candidatos próprios. “As alterações no cenário se darão no campo dele (Lula). PSDB, PDT e Rede não vão mudar sua posição pela presença ou ausência do Lula”, diz o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ).

Para a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), porém, o ideal é uma união das legendas de esquerda em torno do nome do ex-presidente: “Hoje o Lula não é candidato do partido, e sim de uma parcela expressiva da sociedade, que o defende apesar da perseguição política”.

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