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Os Estados Unidos têm uma série de suicídios de veteranos de guerra em estacionamentos de hospitais

O estacionamento de um hospital em Minneapolis onde o veterano Justin Miller se suicidou. (Foto: Reprodução)

Alissa Harrington respirou fundo ao abrir a porta do armário no escritório em sua casa. É ali que ela guarda algo que é doloroso demais para deixar à plena vista. São fotos emolduradas de seu irmão menor, Justin Miller, 33 anos, trompetista dos Marines e veterano do Iraque.

Óculos de segurança ensanguentados recuperados da caminhonete Nissan Frontier recoberta de neve em que seu corpo foi encontrado. Um telefone contendo as últimas mensagens de texto de seu pai: “Amamos você. Estamos com saudades. Volte para casa.”

Miller estava sofrendo de TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) e tendo ideias suicidas quando se internou no hospital do Departamento de VA (Assuntos de Veteranos) em Minneapolis, em fevereiro de 2018. Depois de passar quatro dias na unidade de saúde mental, ele foi até sua caminhonete no estacionamento do VA e se matou com um tiro no próprio lugar para onde tinha ido em busca de ajuda.

“O fato de que meu irmão, Justin, nunca chegou a sair do estacionamento do VA é enfurecedor”, disse Harrington. “Ele fez a coisa certa: procurou ajuda. Não consigo entender.”

Uma investigação federal sobre a morte de Miller concluiu que o VA em Minneapolis cometeu vários erros: não marcou uma consulta de retorno, não comunicou o plano de tratamento do veterano à sua família e não avaliou seu acesso a armas de fogo. Alguns dias após sua morte, os pais de Miller receberam um pacote do Departamento de Assuntos de Veteranos – vidrinhos de antidepressivos e soníferos receitados para seu filho.

A morte de Miller é um dos 19 suicídios ocorridos em instalações do VA entre outubro de 2017 e novembro de 2018, sete dos quais ocorreram em estacionamentos. Embora estudos indiquem que cada suicídio é algo altamente complexo – influenciado por fatores genéticos, por insegurança financeira, perda de relacionamentos e outros fatores –, especialistas em saúde mental temem que o fato de veteranos se suicidarem em locais do VA tenha virado uma forma desesperada de protesto contra um sistema que alguns sentem que não os ajudou.

O caso mais recente de suicídio em um estacionamento ocorreu algumas semanas antes do Natal, em St. Petersburg, na Flórida. Trajado em seu uniforme e ostentando suas medalhas militares, o coronel dos Marines Jim Turner, 55, sentou-se em cima de seus documentos militares e do VA e se matou com um fuzil diante do Departamento de Assuntos Veteranos em Bay Pine.

“Aposto que se vocês investigarem os 22 suicídios por dia, verão que o VA cometeu falhas em 90% dos casos”, escreveu Turner em um bilhete encontrado por investigadores perto de seu corpo.

Citando o desejo de proteger a privacidade dos envolvidos, o VA se negou a comentar os casos individuais. Mas parentes dizem que Turner lhes havia dito que estava furioso porque não conseguira uma consulta de saúde mental que queria.

Levando em conta idade e gênero, os veteranos de guerra têm probabilidade 50% maior que civis de morrer de suicídio. O índice de suicídio de veteranos foi de 26,1 por 100 mil em 2016, enquanto o de adultos não veteranos foi 17,4 por 100 mil, segundo relatório federal recente. Um porta-voz do VA, Curt Cashour, disse que antes de 2017 o departamento não contabilizava separadamente os suicídios cometidos em suas instalações.

A administração de Donald Trump diz que a prevenção do suicídio é sua prioridade clínica número um para veteranos. Em janeiro de 2018 o presidente assinou uma ordem executiva permitindo que todos os veteranos – incluindo os que de outro modo não têm direito a atendimento pelo VA — recebam atendimento de saúde mental no primeiro ano após a conclusão de seu serviço militar, um período marcado pelo alto risco de suicídio, segundo o próprio departamento.

E o VA destaca que impediu 233 tentativas de suicídio entre outubro de 2017 e novembro de 2018, quando seus funcionários intervieram para impedir que veteranos se ferissem no terreno de hospitais.

Sessenta e dois por cento dos veteranos, ou 9 milhões de pessoas, dependem do vasto sistema de hospitais do VA, mas acessar o sistema envolve passar por uma burocracia frustrante. Às vezes os veteranos precisam comprovar que seus problemas de saúde estão ligados a seu serviço militar, e isso pode exigir muitos trâmites e apelações.

Para Eric Caine, diretor do Centro de Prevenção de Suicídios e Controle de Lesões da Universidade de Rochester, os veteranos que se suicidam em instalações do VA muitas vezes visam transmitir uma mensagem.

“Esses suicídios são eventos de aviso”, disse Caine. “É muito importante que o VA reconheça que o local em que se comete um suicídio pode ter grande significado. Temos aqui um convite e um imperativo moral real de examinar mais de perto a qualidade dos serviços prestados aos veteranos ao nível de cada hospital.”

Keita Franklin, que em abril passado se tornou a diretora-executiva do VA para a prevenção de suicídios, disse que o departamento hoje treina patrulhas e funcionários dos estacionamentos para prevenir suicídios. O departamento lançou um programa piloto que estende seus esforços de prevenção de suicídios, que inclui sistema de monitoramento por pares, para locais de trabalho civis e governos estaduais.

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