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Pastor se diz ex-gay, curado graças a Deus e a terapia de reversão

Cena do filme "Boy Erased: Uma Verdade Anulada". (Foto: Reprodução)

Robson Staines, 46 anos, já se apaixonou por um homem. “Ele era gentil e amável. O oposto do pedófilo que abusou de mim.” Hoje ele, além de pastor, cantor, escritor e produtor de moda, se define como ex-gay. Graças a Deus – e à terapeuta que, ao contrário de vários psicólogos lhe recomendaram aceitar sua orientação sexual, compreendeu seu desejo de parar de desejar homens, disse à Folha.

“Ela teve a sensibilidade de entender que entrei na homossexualidade não por ter nascido gay. Fui estuprado novo demais. Eu achava que era sujo para ter envolvimento com uma mulher depois que um homem tinha me tocado.”

Em 2015, Robson entrou no debate público sobre a possibilidade de um tratamento para que alguém deixe de ser gay, hipótese refutada pela maioria dos psicólogos. Numa audiência na Câmara proposta pelo deputado Marco Feliciano (à época no Partido Social Cristão), ele afirmou que consultórios eram “uma fábrica de homossexuais”.

A polêmica foi reavivada com “Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, filme crítico à ideia da cura gay e que teve sua estreia nos cinemas cancelada em fevereiro. Distribuidora do longa, a Universal disse que se tratou de uma decisão comercial após grita nas redes sociais. Muita gente estava dizendo que era censura.

Em liminar do último dia 9, publicada nesta quarta-feira (24), a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu uma decisão da Justiça Federal no Distrito Federal que autorizou a prática por psicólogos da terapia de reversão, popularmente conhecida como “cura gay”.

Robson afirma que, até os 11 anos, “era uma criança feliz”. Até ser estuprado por um vizinho que pulou o muro do quintal após sua mãe sair para trabalhar. “Ele pôs a mão na minha boca falando para eu ficar quietinho ou me mataria. Me machucou tanto que perdi a voz.”

O pastor acreditava que o trauma o levou à “prática homossexual”. “Comecei a ficar totalmente afeminado. Isso começou a chamar a atenção das pessoas.” Dos 13 aos 21, relacionou-se com homens. “Tive vários casos, me prostituí, me travesti. Eu me achava nojento para me envolver com alguma menina.”

Foi a fase das baladas. Bebia muito. Andava com calças de cintura baixa, bermudas coladas no corpo. “Vestido e saia, só quando me prostituía.”

Não entra em detalhes, mas conta que chegou a ter um namorado. “E me apaixonei, sim.” Aos 20 anos, infeliz, tomou 40 comprimidos de Valium com cachaça. Queria morrer.

Robson diz que à tentativa de suicídio se seguiu o primeiro contato com uma igreja evangélica. “Com Deus e ajuda psicológica, estou totalmente livre da homossexualidade”, afirma.

Marisa Lobo, que o atendeu, autointitula-se “psicóloga cristã”. Acusada de misturar prática profissional e religião, quase teve sua licença cassada em meio a um pé de guerra com conselhos de psicologia.

À Folha ela diz que não se trata de “curar” gays. “O que podemos fazer é atender o sofrimento psíquico do paciente. Nós, psicólogos, temos o dever de dar ao sujeito o lugar da sua existência, sem promessas nem induções, claro.”

Lobo diz que é possível a mudança de sexualidade ocorrer durante a terapia. Seria alguém com “condição egodistônica, caracterizada por um indivíduo que deseja uma orientação sexual diferente por causa de transtornos psicológicos e comportamentais associados.”

O psicólogo Klecius Borges, que trabalha com gays na aceitação da sexualidade, lembra de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe a oferta de “serviços que contribuam para qualquer tipo de discriminação contra a diversidade sexual” e “qualquer prática que prometa curar ou alterar a orientação sexual do indivíduo”.

Se um paciente chega ao divã com essa ideia fixa, “o psicólogo deve explicar que não há nenhuma evidência científica de que se pode mudar a orientação sexual de uma pessoa”.

Segundo Borges, taxas de suicídio dobram entre homossexuais que passam por terapias.

“São dados internacionais obtidos por entidades que atuam no atendimento à população LGBT e que têm servido de base para decisões, nos EUA, Canadá e Grã-Bretanha, contra as terapias de reversão.”

Ele entende que muitos gays se vejam como uma aberração e queiram mudar, por se sentirem marginalizados. Boa parte desenvolve uma homofobia internalizada, afirma.

Robson não pensa assim. Para ele, “muitos gays vivem na sem-vergonhice mesmo”. Até a abstinência sexual seria mais aceitável, diz.

Hoje ele é marido de Paula, pai de Weslley, Isabella, Daniella e Gabriel, avô de Bellinda e, sobretudo, “um homem muito feliz, muito bem casado”.

Essa Freud não explica. Décadas antes de a Organização Mundial de Saúde decidir retirar a homossexualidade de seu rol de doenças, o criador da psicanálise respondeu a carta de uma mãe preocupada com o filho gay.

Sigmund Freud tentou acalmá-la. Muitos “homens de grande respeito” deitaram-se com homens: Platão, Leonardo da Vinci etc. “É uma grande injustiça e também uma crueldade perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito”, escreveu há 84 anos.

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