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Poucos personagens da Operação Lava-Jato mudaram tanto ao longo da trama quanto o procurador-geral da República, Rodrigo Janot

Mandato do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acaba em setembro. (Foto: Reprodução)

Se a Operação Lava-Jato fosse uma série, poucos personagens teriam experimentado um “character development” tão evidente quanto o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Resumindo, grosso modo, o “arco do personagem”, como dizem os roteiristas, Janot começou a saga como aquele personagem bonachão, pouco carismático, pouco proativo, que se viu diante de um escândalo de proporções avassaladoras e demorou para pegar no tranco.

Antes de soltar a primeira “lista do Janot”, era comum se encontrar com o então ministro da Justiça José Eduardo Cardoso em reuniões fora da agenda, o que sempre suscitou uma dúvida sobre seu suposto alinhamento ao PT. Renan Calheiros, outro personagem central da trama, era, então, um suporte importante para Dilma Rousseff, e nos bastidores se dizia que contava com a benevolência de Janot para escapar de denúncias – e realmente elas demoraram a vir, no seu caso.

A primeira lista saiu, em 2015, com vários nomes, mas Janot ainda demorou para ganhar relevância na história. O núcleo Curitiba da Lava-Jato estrelava os episódios mais eletrizantes, e os capítulos de Brasília se arrastavam sem angariar muita audiência.

Mas tudo mudou na atual temporada. Com a segunda lista do Janot, após a delação da Odebrecht, um daqueles “ganchos” que levam a uma reviravolta crucial na narrativa, o procurador-geral se tornou mais aguerrido, e – algo improvável – passou a acumular admiradores.

O rol de políticos listados a partir da colaboração da empreiteira incluiu todo o espectro relevante da política, e Brasília passou a ombrear com Curitiba em importância para o desfecho da Lava Jato.

Mas ainda não era tudo. Janot teria, em breve, uma chance de chegar a protagonista. E ela veio na forma da delação da JBS, uma clássica virada inesperada na história, que colocou o próprio presidente da República na berlinda.

E aí nosso homem no Ministério Público saiu da toca. Escreveu artigos defendendo procedimentos para lá de heterodoxos e benefícios inéditos dados aos mafiosos da proteína animal, mandou prender geral – algo com que vinha sendo comedido em suas temporadas menos ativas – e ganhou de vez a atenção dos espectadores, dividindo opiniões: para uns, herói; para outros, vilão.

Sucessão

É nesta condição que Janot chega a um ponto crucial da própria saga: sua sucessão. A superexposição que experimentou nos últimos meses o impediu de pleitear o terceiro mandato. Se, por um lado, ganhou mais, por outro passou a ser persona non grata no Planalto, o que o impediria uma recondução.

Questionado também internamente, corre o risco de ver o único dos nove postulantes à sua cadeira mais identificado com seu grupo, o subprocurador Nicolao Dino, ficar de fora da lista tríplice escolhida pela categoria e que será enviada a Michel Temer – hoje o inimigo público número 1 de Janot.

Próximo a sair de cena na série Lava-Jato, pois seu mandato acaba em setembro, Janot ainda é um personagem difícil de decifrar: seu sangue nos olhos na reta final foi seletivo? Afinal, quando era Dilma Rousseff a presidente ele não demonstrou tanto vigor apuratório.

Também é impossível não apontar a fragilidade técnica de decisões como conceder o paraíso na terra aos delatores da JBS, não periciar o áudio da conversa entre Temer e Joesley Batista ou usar um tuíte para reforçar o pedido de prisão de Aécio Neves.

Vê-se um procurador-geral que, contrariando suas características iniciais, deixa o posto querendo mostrar serviço, sendo que todo o seu histórico mostra um ritmo bem mais lento. E que não deixa um séquito de admiradores entre seus comandados, haja visto o grau inédito de confronto que se vê nos debates entre os candidatos e o fato de quase todos eles serem seus opositores. (Vera Magalhães/AE)

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