Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020

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Brasil Rigotto diz que tese do impeachment é oportunismo político

Germano Rigotto
O ex-governador Germano Rigotto, citado ontem no editorial do Diário Comércio, Indústria & Serviços, de São Paulo. (Foto: Arquivo AL-RS)

O ex-governador Germano Rigotto escreve artigo para criticar o governo e a oposição diante da crise política e econômica nacional. Rigotto afirma que as agendas do governo perderam credibilidade, “até porque ele mesmo se esmerou nessa tarefa de descrédito”. Depois de sustentar que a presidente Dilma Rousseff anunciou medidas relacionadas à corrupção e à crise econômica, que nunca saíram do papel, o ex-governador alerta que a oposição também não consegue propor uma pauta para o país. E critica o que chama de oportunismo político: “Fazem um jogo político perigoso, tentando destronar a presidente do poder a qualquer custo. Não é por aí. Toda e qualquer solução deve ocorrer pelas vias constitucionais, respeitando todo o ordenamento jurídico brasileiro”.

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Momentos de crise são reveladores em todos os sentidos. Na política, não é diferente. Em situações-limite é que pessoas, grupos, convicções e posturas são testadas. No caso do Brasil, que está mergulhado em um imenso turbilhão, parece haver uma fadiga de propostas. A nação não se mostrou preparada para enfrentar este momento. Isso vale para o governo, que tinha a obrigação de comandar o processo, mas também para as forças políticas de outros espectros, que não conseguem apresentar caminhos alternativos de retomada.

É verdade que as instituições estão funcionando a contento, observando as regras democráticas. Isso precisa ser reconhecido. Diferente de outros países da América Latina, aqui os poderes estão exercendo livremente suas funções. Claro que esse equilíbrio sempre precisa ser ajustado e vigiado, mas nosso modelo dá sinais de amadurecimento. O que nos falta é um desenho, um esboço sequer, que consiga mostrar um rumo para sair da crise – tanto econômica quanto política – em que o Brasil se encontra.

As agendas do governo perderam credibilidade, até porque ele mesmo se esmerou nessa tarefa de descrédito. Diversas medidas anunciadas pela presidente Dilma, desde o começo dos escândalos de corrupção ou desde o prenúncio das dificuldades financeiras, não foram colocadas em prática. Ficou só no discurso. A coalizão governista não foi capaz de propor nada que significasse uma mudança estrutural para o país.

A oposição, por sua vez, tampouco consegue ter luzes para propor uma pauta concreta para o país. Ela faz o seu papel, que é de criticar severamente a atual gestão. Está legitimada para isso. Contudo, não se percebe, como não se viu durante a campanha eleitoral, um projeto alternativo para o país. Além desse vácuo, há os que, mais oportunistas, fazem um jogo político perigoso, tentando destronar a presidente do poder a qualquer custo. Não é por aí. Toda e qualquer solução deve ocorrer pelas vias constitucionais, respeitando todo o ordenamento jurídico brasileiro.

Nos últimos dias, o governo tentou um novo movimento de arrumação política da sua base. Claro que o objetivo é compreensível. Num regime presidencialista de coalização, pouco se consegue sem o apoio do Congresso. Entretanto, mais uma vez, a prática adotada foi a pior possível. Sem mesmo disfarçar, o velho jogo fisiologista voltou à tona com tudo. Ora, dias depois de anunciar a redução de ministérios, o que ainda nem se materializou, o Executivo deu início a um verdadeiro leilão de cargos em troca de fidelização parlamentar. Não adiantará.

Nesse contexto, lamento ver o meu partido, o PMDB, mais uma vez, como protagonista de tão flagrante despropósito. A maior agremiação do país, com uma história valorosa ligada à democracia brasileira, se presta a uma postura de barganha com o PT. O que menos parece importar é a qualificação de quem irá ocupar um ministério. Isso é vergonhoso. E não é exclusividade peemedebista, infelizmente. A história recente e passada já mostrou que uma relação firmada por meio desses métodos não persiste. E pior: é uma fábrica de produzir escândalos.

Alguns líderes estão percebendo que a estratégia não pode ser essa. Ninguém ganha. Talvez, a curto prazo, possa render alguns nacos de poder a mais, considerando orçamentos, cargos e carteira de relacionamentos. Porém, a grande sustentabilidade para este governo só se dará apenas e quando ele conseguir recolocar o país nos trilhos. Ou, ao menos, mostrar que tem noção do caminho para chegar até lá. Caso contrário, nada adiantará.

Quem agir com altivez, discernimento e responsabilidade neste ápice da crise terá reconhecimento político quando a maré baixar. Os demais, passarão – como diria Mário Quintana. Isso vale para o governo, os seus adjacentes e a oposição. É preciso aceitar sacrifícios concretos para buscar a governabilidade, como, por exemplo, abrir mão de cargos. E muito mais: propor reformas estruturantes, ampliar o diálogo, oxigenar os espaços de poder, discutir com mais amplitude uma agenda para o país. O nome disso é responsabilidade.

Germano Rigotto
Ex-governador do RS

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