Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

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Capa – Magazine Saiba por que celebridades estão sendo “canceladas” nas redes sociais

Pelo Brasil, o tribunal das redes já sentenciou nomes como  Nego do Borel e Anitta. (Foto: Reprodução/Instagram)

Bastou uma declaração do ator Rodrigo Pandolfo , afirmando que o casamento gay no filme “Minha mãe é uma peça 3” não será selado com beijo por opção do autor e protagonista Paulo Gustavo, para as redes sociais agirem.

O nome do comediante liderou o ranking de assuntos mais comentados do Twitter na quinta-feira (12), com uma enxurrada de mensagens imperativas propondo boicote ao filme e à carreira. Errado ou não, Paulo Gustavo, que já causara polêmica ao não beijar o marido Thales Bretas no casamento dos dois em 2015, nem teve chance de defesa.

Conhecido como “cultura do cancelamento”, o tribunal sumário das redes tornou-se comum desde a explosão do movimento #MeToo, pautando o comportamento on-line de marcas e pessoas públicas.

Há casos mais graves, como os do ator Kevin Spacey, do comediante Bill Cosby e do cantor R. Kelly, “cancelados” por acusações de crimes sexuais. E outros que podem soar banais, como o da cantora pop Taylor Swift, que viu a hashtag #TaylorSwiftIsCancelled bombar apenas por bater de frente com o casal Kanye West e Kim Kardashian. Por aqui, o tribunal das redes já sentenciou nomes como Neymar, Nego do Borel e Anitta — a cantora já foi acusada, por exemplo, de se valer do público LGBT sem defender as bandeiras da causa.

“Quando você diz que alguém está cancelado, não é uma série de TV. É um ser humano. Você está enviando uma grande quantidade de mensagens mandando essa pessoa calar a boca, desaparecer, ou também pode ser percebido como um ‘se mata!’”, criticou Taylor na reportagem de capa da revista “Vogue” de setembro.

“Podemos ver a cultura do cancelamento como a necessidade mesquinha de destruir alguém, uma justiça nas mídias sociais”, explica John Suler, professor da Rider University, nos EUA, e autor de livros sobre ciberpsicologia (a psicologia da web). “Vivemos tempos difíceis, em que pessoas se sentem escanteadas, frustradas, irritadas. E estão buscando alvos para desabafar suas frustrações. A mídia social torna fácil unir forças com outros para exalar essas insatisfações.”

Para Lisa Nakamura, professora na Universidade de Michigan que estuda debates levantados nas redes sociais sobre gênero, sexualidade e raça, a cultura do cancelamento nasce do desejo de controle. Ela cita o caso do youtuber americano Logan Paul , atacado por exibir num de seus vídeos o corpo de um suicida no Japão, sem sanções do YouTube. Diante da aparente falta de regras, os usuários resolvem fazer justiça com os próprios posts.

“Cria-se assim um senso de responsabilidade, que é aleatório e desregulado, mas precisava surgir, porque coisas socialmente condenáveis são postadas o tempo todo”, aponta Lisa. “Surge um acordo não escrito de não amplificar nem dar dinheiro para quem comete esses deslizes. Quando você priva alguém de atenção, está privando-o de um meio de vida.”

Diretor de filmes da franquia “Guardiões da Galáxia”, o cineasta James Gunn, por exemplo, foi demitido da Marvel depois que publicações antigas suas, fazendo piadas de mau gosto envolvendo mulheres e abuso sexual de crianças, ressurgiram na rede — após comoção e pressão do elenco, ele foi readmitido no estúdio oito meses depois. No ano passado, no mesmo Twitter, a veterana atriz Roseanne Barr fez um comentário racista contra Valerie Jarrett, assessora de Barack Obama, às vésperas da reestreia de sua série de TV “Roseanne”. Ela foi demitida do próprio programa, que passou a se chamar “The Connors”.

Enquanto isso, no Brasil, o cantor Nego do Borel anunciou o cancelamento da gravação de seu DVD por conta das críticas que vinha recebendo por chamar a transexual Luisa Marilac de “homem”. Também neste ano, Valesca Popozuda, muito identificada com o movimento LGBT, teve shows cancelados após postar um vídeo com o maquiador e influencer Agustin Fernandez, apoiador do presidente Jair Bolsonaro — no Twitter, a história ganhou a hashtag #RIPValesca (“descanse em paz, Valesca”).

Drible de Neymar

O escritor Michel Laub, autor do romance “O tribunal da quinta-feira”, em que o narrador é vítima de um massacre virtual, cita o caso de Neymar com a modelo Najila Trindade. Diante das acusações de estupro e da avalanche de críticas, o jogador optou por divulgar um vídeo com um suposto diálogo de cunho sexual por WhatsApp, expondo fotos íntimas da modelo.

“Hoje, o importante é a imagem. Ele preferiu cometer um crime, divulgando o vídeo de forma ilegal, do que ter a imagem arranhada. Na Justiça comum, Neymar poderia discutir a questão do estupro. Na internet, 24 horas de ataques podem ser suficientes para que patrocinadores cancelem contratos”, lembra o escritor. “A internet mudou os parâmetros do que é público e do que é privado, do que é verdade ou mentira. E isso tende a piorar, com o aumento das fake news, das deepfakes ( tecnologia que cria vídeos falsos e realistas ).”

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