Saiba porque a Alemanha se recusou a acompanhar os EUA, o Reino Unido e a França no ataque à Síria

A decisão anunciada pela chanceler Angela Merkel na quinta-feira foi elogiada por aliados. (Foto: Reprodução)

Enquanto a França e o Reino Unido apoiam o ataque americano contra a Síria, a Alemanha descartou a possibilidade de participação do conflito, para evitar um possível confronto com os russos. A posição alemã é motivada em parte por seu passado recente, quando milhões de soviéticos foram mortos pelos nazistas na Segunda Guerra. Além disso, Berlim não quer de forma alguma contrariar seriamente o seu principal fornecedor de gás: cerca de 30% do total desse combustível consumido no país, sobretudo para calefação, vêm da Sibéria. Com esse pano de fundo, a decisão anunciada pela chanceler federal Angela Merkel na quinta-feira foi elogiada por aliados e por três partidos de oposição, da extrema-direita à extrema-esquerda.

Já em 2002, quando Gerhard Schroeder era chanceler, o governo alemão desafiou os americanos se posicionando claramente contra a invasão do Iraque. Merkel, na época líder da oposição, não quer desafiar Trump, mas aprendeu com seu erro na época, quando apoiou o então presidente George W. Bush numa guerra vista como um erro histórico, que ainda hoje custa a ela votos e que fez o terrorismo crescer em todo o mundo árabe.

“A nossa competência básica não é a execução de ataques militares, mas sim uma diplomacia forte, compensação de interesses, desescalação de conflitos e o apoio”, afirmou o vice-presidente do Parlamento, Thomas Oppermann.

Para Andreas Edges, cientista político da Universidade de Munique, um ataque militar não só não ajudará os sírios, como complicará ainda mais a situação do país. Mesmo depois da derrota do Estado Islâmico, grupo que lutou contra o presidente Bashar al-Assad, a Síria é ainda um país afetado pelos interesses de fora, seja dos americanos, russos, iranianos ou turcos, mas durante muito tempo ignorado pelos europeus. Estes só voltaram a pensar no assunto em 2015, depois que a multidão de refugiados, fugidos dessa guerra, chegaram ao continente.

Tendo em vista a ameaça de escalada para um conflito entre duas potências atômicas e os refugiados que continuam chegando, tanto a UE (União Europeia) quanto Organização do Tratado do Atlântico Norte passaram a ter mais interesse pela situação da Síria, mas não conseguiram até agora um consenso para uma posição em comum.

Katja Kipping, presidente do partido A Esquerda, observa, preocupada, como Trump “brinca com o fogo” com os seus tuítes, ameaças que, se forem concretizadas, causariam “um incêndio” no mundo inteiro.

Mas não é só a ojeriza à guerra que motiva os alemães. Igualmente importante é a segurança no abastecimento de gás. O gasoduto Nordstream2, que deverá entrar em funcionamento em 2019, resultará – também para a UE – numa dependência ainda maior do gás da Sibéria. O fornecedor do gás é a gigante russa Gazprom, onde o ex-chanceler Schroeder é um alto executivo.

A dependência dos europeus do gás da Sibéria é vista pelos americanos como duplamente negativa. Em primeiro lugar, eles estariam dispostos a usar até as sanções econômicas para afugentar os russos do mercado europeu, que querem abastecer com seu próprio gás líquido produzido pelo método de fracking. Também do ponto de vista político, o excesso de dependência é malvisto, lembra Andreas Etges. Sobretudo países europeus como a Alemanha são criticados por serem amáveis demais para com o presidente russo, Vladimir Putin.

Desde o fim dos anos 1960, ainda no auge da Guerra Fria, a Sibéria abastece a Europa Ocidental com gás. Depois dos americanos, é a Ucrânia a maior crítica do Nordstream2, que vai trazer o gás à Europa através do Norte do continente, por Finlândia, Dinamarca e Suécia. Quando o novo gasoduto entrar em funcionamento, a Ucrânia perderá o status de “país de trânsito” do gás, que usa como uma boa fonte de renda, embora no Leste suas tropas lutem contra separatistas apoiados pela Rússia.

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