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Tratar um câncer transforma a vida, nem sempre para pior

Autoconhecimento e autoestima podem vir como parte da transformação. (Foto: Reprodução)

A vida de quem passa por um tratamento de câncer é transformada em aspectos alheios à doença, como relações afetivas e familiares, autoimagem, hábitos, rotina. Mas nem sempre a transformação é para pior.

“Infelizmente, muitos maridos abandonam as mulheres que descobrem um câncer”, diz Luciana Holtz, presidente do Oncoguia, entidade que auxilia pacientes da doença, disse ao jornal Folha de S. Paulo.

Por ouvir histórias que exemplificam a afirmação acima, a cabeleireira Cíntia Gonçales, 38, resolveu se antecipar e mandar seu marido embora quando recebeu o diagnóstico de linfoma em 2013.

“Falei: ‘não sei se você vai ter cabeça para enfrentar isso comigo, vai ser difícil, não quero que você passe por isso’, aquelas paranoias. Não queria vê-lo sofrer”, relembra.

Mas o parceiro não foi embora. Ficou e a viu vencer o linfoma, em 2014, para descobrir uma leucemia, que Cíntia combate desde o fim de 2017. Eles estão casados há 16 anos.

O tratamento das neoplasias, é claro, afetou a rotina do casal, já que Cíntia não conseguia, por exemplo, fazer sexo.

“Na época do linfoma não dava, de jeito nenhum. Minha cabeça queria, mas o corpo não. A gente fica muito ressecada. Tentei gel, tentei tudo que você pode imaginar, mas acabava me machucando e me frustrando”, afirma.

O marido, conta ela, reagiu bem e nem sequer tocava no assunto, porque sabia que Cíntia tinha vontade.

No tratamento da leucemia tem sido mais fácil. “Talvez porque minha cabeça também tenha mudado, mas tem uma medicação que tomo a cada três meses que me deixa muito ressecada. Nesse tempo, é mais difícil”, diz.

Para comunicar a sua doença ao filho de 9 anos na época, que tem síndrome de Down, Cíntia recorreu ao lúdico. “Fui contando como se fosse uma historinha. No fim, ele entendeu e raspou a cabeça.”

Outro aspecto que pode ter impacto na vida do paciente é a mudança na aparência, por causa da quimioterapia.

“Quando raspei a cabeça, para mim foi tranquilo, o problema foram os outros”, conta a assistente de atendimento Regiane da Silva, 26, que fez recentemente a última sessão de químio para tratar um linfoma descoberto em março.

Ela diz que, às vezes, quando passeia de lenço na cabeça, recebe olhares assustados ou de dó, o que incomoda.

“Também fui me inscrever numa academia, e a atendente me falou ‘nossa, mas você está de lenço, vai conseguir fazer?’”, relembra.

A publicitária Paula Dultra, 38, que já passou por um câncer de mama e hoje enfrenta um de ovário, diz não perder a vaidade mesmo careca. “Uso turbante de oncinha.”

Uma tentativa malsucedida de evitar —ou ao menos reduzir— a queda de cabelo, no entanto, a deixou chateada. Como já ficara careca em 2011, época do primeiro tumor, tentou evitar a perda capilar no tratamento atual.

Paula testou a touca gelada, método que baixa a temperatura do couro cabeludo durante as sessões de quimioterapia, para proteger as células. “Tive que ficar sete dias sem lavar o cabelo e, depois, não deu certo. Isso me deixou abalada”, afirma.

Só que nem toda mudança durante o tratamento de um câncer tem de ser negativa.

Cíntia conta que, antes de descobrir o linfoma e a leucemia, tinha autoestima péssima e se achava muito feia. “Quando fiquei careca, foi a primeira vez que me olhei no espelho e me achei bonita, aos 32 anos. O câncer me trouxe a autoestima que nunca tive.”

Junto com o amor-próprio veio um sentido de independência. “Antes, eu mal saía de casa. Era só filho, marido, irmão, mãe. Esqueci de mim por muito tempo e, com a leucemia, mudei minha forma de viver”, diz ela, que agora viaja uma vez por mês para a casa de uma amiga em Santos.

Regiane afirma que passou por fases muito difíceis, como na época em que teve de parar de amamentar o filho, ou quando tomava morfina para dormir, ou, ainda, quando, exausta, se sentava no chão do trem lotado, a caminho do trabalho. Mesmo assim, diz que a doença lhe fez bem.

“Você pode passar por tudo com mente positiva. A gente apanha, mas aprende. Eu me considero hoje uma pessoa muito melhor e mais humana. Foi bom para mim”, afirma.

Paula, que também diz enfrentar a doença com otimismo, criou um blog em 2012, chamado Mão Na Mama, no qual conta suas experiências e auxilia outros pacientes.

“Sempre tive uma visão prática. Tenho a doença, o que vou fazer? Levo a vida normalmente, não deixo que o câncer me defina”, afirma.

As três mulheres têm em comum o fato de terem contado com o apoio da família, dos companheiros e de amigos.

“Esse é o remédio que mais fez efeito”, resume Regiane, que vai se casar em outubro.

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