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TRISTE NOTORIEDADE COMPRADA

(Foto: Reprodução)

Se a aceitação, ou a mera compreensão participativa que explica a quebra da privacidade, é surpreendente, a colaboração explícita, para que ela ocorra, é preocupante. Constata-se uma aspiração de expor-se. É fenômeno que se alastrou pela força midiática somada à globalização.

Fazer-se um programa que se estende por três, quatro meses apenas mostrando a convivência de um grupo de pessoas não parece das ideias mais criativas e atraentes. O que justifica uma análise aprofundada são situações e comportamentos coletivos que ocorrem antes, à volta e depois dele (ou por causa dele).

Se estaria colocando, não apenas os que aceitam, colaborando ativa ou passivamente, não obstaculizando o seu devassar, mas especialmente os que postulam essa quebra da intimidade. Na preparação de uma edição do Big Brother, da TV Globo, o dado oficial da emissora foi que setenta e duas mil pessoas apresentaram-se espontaneamente (enviando currículos, vídeos, fitas etc), pleiteando vaga para integrar o programa.

A questão transcende à preocupação ética e jurídica de proteção da intimidade, alcançando uma análise da radical transformação nos padrões culturais e morais de crescente parcela da população, que cultua, não a preservação de sua intimidade, mas o eventual ganho pela transitória e, no caso, explicitamente desnudada, notoriedade.

Seria a ânsia de uma eventual perspectiva de prêmios o que levaria alguém a lançar-se nessa empreitada, na qual o custo é expor-se para distrair e divertir a curiosidade alheia? Seria a consequência do impacto (de)formador midiático, fazendo com que se creia que o valor maior na vida é a notoriedade, não importa a que título e em que condições, no raciocínio elementar de que a infelicidade e a mediocridade estão no anonimato?

O que não se pode negar é a universalização do fenômeno, levado a diferentes países, mesmo em desnivelados estágios civilizatórios, pela padronização globalizante. Por ela, a mídia, em toda a parte, oferece a mesma coisa para diferentes públicos (europeus, asiáticos, latino-americanos etc.); e todos eles, porque colonizados por ela, respondem passivamente, aplaudindo. Uns não criam; recriam ou só copiam; outros, não julgam, absorvem.

A vulgarização estética do proposto só se consagra porque há flagrante redução na exigência de qualidade e seriedade criativa do destinatário. Os valores que a mídia, no caso, não só transmite, mas infunde, são os da importância do ser notado, forma de se autopromover. Se ela (a mídia) enseja a notoriedade, e esta significa importância, logo há que se corteja-la, a ela submeter-se, para ascender, ter instantes de “glória”.

Em síntese, a forma não está no que é dito, nem, muitas vezes, por quem o diz, mas por quem decide quem o diz, quando será o dia de dizer e de que maneira o diz para que outros o julguem positivamente. É o render-se à tríplice aliança (mídia, tecnologia e globalização) alimentada e alimentando, às vezes, até capitais internacionais (eventualmente, especulativos) e vinculados a um projeto de manutenção e criação de poder político.

Uma atualizada tecnologia serve de instrumental para esse processo crescente de dominação de massas, por meio da investigação invasora que conta com a complacência – em realidade, com a convivência e a conivência interessada – de parcelas crescentes da sociedade.

O popularizar-se dessas experiências, sua inclusão no quotidiano da vida societária, quebra, enfrentando usos e costumes, o respeito pelo direito à privacidade. Há quem pense ser esta, ao contrário, mercadoria comercializável – e tem sido – que conviria “vender” logo, posto que, banalizada, fica patente a sua desvalia (feita costumeira a sua quebra), “perdendo” preço no mercado esdrúxulo das commodities morais.

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