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Brasileiro descobre caminho para tratar diabetes

Acredita-se que a descoberta pode, no futuro, representar uma das estratégias no tratamento do diabetes tipo 2 e não a única. (Foto: Reprodução)

Um novo estudo realizado por cientistas brasileiros descobriu que, ao injetar o lipídio 12-HEPE, naturalmente produzido pela gordura marrom do corpo, em camundongos obesos, os níveis de glicose no sangue dos animais era controlado. A pesquisa de Luiz Osório Leiria, do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), foi realizada no Joslin Diabetes Center, em Harvard, e publicada no periódico Cell Metabolism no dia 25 de julho.

“Nós injetamos uma alta dose de glicose nos animais para analisar o tempo com que ela era absorvida pelo corpo –em pessoas diabéticas, os níveis demoram para serem reduzidos no sangue. Em seguida, injetamos o 12-HEPE e observamos que ele melhorou a capacidade de diminuição da glicose no sangue”, contou Leiria.

O pesquisador, então, sugeriu que esse efeito poderia ser mediado por dois mecanismos: o lipídio estimula o pâncreas a produzir insulina ou o próprio 12-HEPE estaria captando a glicose. “O estudo mostrou que não havia efeito no pâncreas. A conclusão, portanto, foi que o lipídio promove a captação da glicose”.

O cientista ainda mediu os níveis desse lipídio em indivíduos de diversos IMC (índice de massa corporal), desde os muito magros aos com sobrepeso e obesidade, e descobriu que quanto maior era o IMC, menor era a quantidade de 12-HEPE. Segundo Leiria, isso pode ser explicado pelo fato de que obesos têm menos massa de tecido adiposo marrom do que pessoas magras. “Essa ausência de gordura marrom no obeso inclusive pode ser responsável pela obesidade e até pelo maior risco de diabetes nesses indivíduos”, diz.

Em outro teste, os participantes foram tratados com uma dose via oral de um medicamento para hiperatividade da bexiga, chamado Mirabegron, que ativa o tecido adiposo marrom. “O medicamento aumentou a captação da glicose no sangue dessas pessoas, então vimos um aumento do 12-HEPE neles também, ou seja, o fenômeno observado nos ratos ocorreu também nos humanos”, explica Leiria.

A terceira evidência foi revelada quando o pesquisador testou o efeito do lipídio em células isoladas de tecido adiposo marrom de humanos. Quando o 12-HEPE foi aplicado direto na célula, ele também aumentou a captação de glicose.

Tratamento

Antes que o estudo seja interpretado como uma solução para o diabetes, Leiria diz que ainda é cedo para isso. “Precisamos de mais estratégias e temos que ter o pé no chão”, diz. “É claro que a os resultados positivos em humanos anima, mas ainda precisamos descobrir como sintetizar esse lipídio em grandes quantidades ou identificar qual a proteína receptora nas células onde o 12-HEPE se liga, para desenvolvermos estimuladores dessa proteína, mais fáceis de sintetizar.” O objetivo do cientista agora é, além de seguir testando o 12-HEPE, tentar identificar o receptor, para uma nova classe de drogas.

Carlos Eduardo Barra Couri, endocrinologista e pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, que não esteve relacionado ao estudo, acredita que a descoberta pode, no futuro, representar uma das estratégias no tratamento do diabetes tipo 2 e não a única.

“Esse tipo de diabetes é muito complexo. O pâncreas não produz muita insulina e a que produz não age de maneira correta no intuito de baixar a glicose. O glucagon, o hormônio antagonista da insulina, está alto, ou seja, aumenta a glicose. É multifatorial. A descoberta do papel da gordura marrom nisso tudo é uma peça no quebra-cabeças, um dos pontos que podem ser usados para tratamento”, explica Couri. “Mas é importante saber que o tratamento tem que ser multifatorial, como o coquetel da Aids”.

Francisco Estivallet Finamor Junior, endocrinologista pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Endoclínica SP, concorda que a ideia do estudo seria mais uma estratégia para o tratamento. “Esta nova medicação associada ao tecido marrom pode se mostrar importante em estudos futuros. Vamos torcer para que seja mais um mecanismo de controle de uma das doenças mais importantes do mundo”.

Segundo ele, hoje não há um remédio que cuide de todos os problemas do diabetes tipo 2: são diversos. As classes de medicação atuais focam no aumentam da secreção de insulina ou reduzem a produção de glicose pelo fígado, melhorando a sensibilidade da utilização dessa glicose e da própria ação insulínica nos tecidos periféricos. Se o estudo de Leiria se mostrar funcional, no dia a dia ele será uma ferramenta útil junto às demais no tratamento.