Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020

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Brasil Um dos agrotóxicos mais populares do mundo é suspeito de causar câncer

Glifosato é o mais vendido no País, conforme dados do Ibama. (Foto: EBC)

Possíveis riscos para a saúde humana estão colocando em xeque um dos agrotóxicos mais populares do mundo. Em decisão inédita, a Justiça norte-americana condenou a Monsanto a indenizar o jardineiro Dewayne Johnson em US$ 289 milhões pelo aparecimento de um câncer, que estaria relacionado ao uso do herbicida Roundup, que tem como princípio ativo o controverso glifosato.

A empresa, adquirida recentemente pela gigante Bayer por US$ 63 bilhões, é alvo de mais de 5 mil processos semelhantes. No Brasil, uma decisão da 7ª Vara da Justiça Federal em Brasília determinou a suspensão do registro de todos os produtos com o ingrediente até que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) conclua os procedimentos de reavaliação toxicológica.

Os números do glifosato são impressionantes. De acordo com a Zion Market Research, o herbicida gerou receitas de US$ 7,24 bilhões apenas no ano passado. Ontem, primeiro dia de pregão após o veredito em favor de Johnson, as ações da Bayer fecharam em queda de 9,63% na Bolsa de Frankfurt.

No Brasil, dados sobre o mercado de agrotóxicos variam de acordo com a fonte, mas todos apontam o glifosato como o mais utilizado. O “Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos”, publicado este ano pelo Ministério da Saúde, informa que em 2014 (última estimativa disponível) foram comercializadas 488,4 mil toneladas de glifosato, o que representa 31,45% do mercado total de defensivos agrícolas.

O Ibama também coloca o glifosato como o agrotóxico mais vendido no País, com volumes mais de três vezes maiores que o segundo da lista, o herbicida 2,4-D, segundo dados referentes a 2016.

Em comunicado, a Monsanto afirma entender “o anseio do senhor Johnson e sua família em busca de respostas”, mas o veredito “não muda o fato de que mais de 800 estudos e análises científicas (e conclusões da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, dos Institutos Nacionais de Saúde americanos e autoridades regulatórias em todo o mundo) apoiam o fato de o glifosato não causar câncer”.

A companhia informa ainda que “apelará desta decisão e continuará a defender o produto, que tem um histórico de 40 anos de uso seguro e continua a ser uma ferramenta vital, eficaz e segura para os agricultores e outros”.

Sobre a decisão da Justiça brasileira, a companhia defende que o glifosato é “ferramenta vital para a agricultura” do país, para ajudar os agricultores a “controlar plantas daninhas de forma eficaz, sustentável e segura”:

“Em avaliações de quatro décadas, a conclusão de especialistas em todo o mundo – incluindo a Anvisa, autoridades reguladoras nacionais nos EUA, Europa, Canadá, Japão e outros países, além de organizações internacionais de ciência e saúde – tem sido que o glifosato pode ser usado com segurança”.

História

Lançado em 1974, o glifosato foi considerado seguro por décadas, mas nos últimos anos novos estudos questionaram essa posição. Em março de 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o ingrediente como “provável agente carcinogênico” para humanos.

Marcia Sarpa, toxicologista do Inca (Instituto Nacional de Câncer), destaca que um dos estudos considerados pela Iarc acompanhou trabalhadores que lidam com o glifosato desde 1987 para monitorar os riscos para a saúde.

“Não sou eu que estou falando, são estudos científicos realizados no mundo inteiro indicando que a exposição ao glifosato aumenta os riscos de linfoma não-Hodgkin, o mesmo que afetou o jardineiro americano”, aponta Marcia. “Nós também fizemos um estudo aqui no Inca, que deve ser publicado até o fim do ano, indicando que pacientes com exposição ocupacional a agrotóxicos em geral, não apenas o glifosato, têm mais chances de desenvolverem linfomas não-Hodgkin”.

Além do risco de câncer, os agrotóxicos em geral provocam intoxicação, sobretudo na população rural que lida diretamente com essas substâncias. Conforme dados do Ministério da Saúde, foram registrados 13.982 casos de intoxicação ano passado, aumento de 12% em relação ao ano anterior.

O Sistema de Informação sobre Mortalidade contabilizou 492 óbitos por envenenamento em 2016. Professora do Departamento de Geografia da USP, Larissa Mies Bombardi alerta que essas substâncias também chegam às mesas dos consumidores, e em níveis mais altos que o aceito em outros países.

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