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Jovem astrônoma brasileira vai até a Nasa para decifrar galáxias

Bolsista contou com apoio da Capes, agência que sofre com falta de recursos. (Foto: Reprodução)

Primeira da família a conquistar uma vaga na universidade, Carolyne Oliveira, de 27 anos, que é negra e original de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), escolheu estudar algo muito distante de sua realidade — na verdade, a muitos anos-luz dali. Ela, astrônoma, estuda as propriedades físicas e as aparências das galáxias.

Em sua aventura mais recente, Carolyne foi para a Nasa (agência espacial norte-americana), onde passou cinco meses analisando galáxias próximas e distantes. A experiência nos EUA fez parte do que, no jargão acadêmico, é conhecido como mestrado-sanduíche.

Carolyne é aluna do curso de mestrado em astrofísica do Observatório do Valongo, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Eu uso dados provenientes de vários telescópios, além de muita física e computação, para entender como as galáxias evoluem no Universo”, conta.

Na colaboração na Nasa, com a pesquisadora Antara Basu-Zych, ela estudou como as propriedades físicas e como a aparência dessas galáxias estão conectadas entre si, e como a presença ou não de outras ao redor delas pode determinar por que essas galáxias são similares a outras galáxias mais distantes.

Antes de pesquisar num nível científico tão elevado, o caminho percorrido não foi simples. Desafios surgiram já em 2013, no começo da graduação. “A maioria dos livros na biblioteca do Instituto de Física eram em inglês, então eu tinha sempre que correr para no início do semestre pegar os exemplares em português.”

Carolyne pagou um curso de inglês ao longo de três anos com o dinheiro que conseguia com bolsa de iniciação científica, atividade que também demandava o conhecimento do idioma. O inglês tornou-se ainda mais importante no início deste ano, quando Carolyne embarcou para a gelada Maryland, onde fica o Centro de Voos Espaciais Goddard, da Nasa.

A preocupação da mãe, Josenilde Santos, vendedora de cosméticos, era, claro, com o frio (Carolyne viajou em pleno inverno do hemisfério norte) e com a possibilidade de a filha passar por algum apuro financeiro, pois não teria como ajudar. Josenilde criou sozinha a filha e sempre buscou bolsas de estudo em colégios particulares para que Caroylne tivesse melhores oportunidades na vida.

Para a viagem, a astrônoma contou com um apoio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, agência de fomento à pesquisa do governo federal), por meio do Programa Geral de Cooperação Internacional (PGCI). Agora, porém, o edital que viabilizou a ida de Carolyne à Nasa está suspenso em meio aos cortes e contingenciamentos provocados pela política econômica do governo federal.

Foram pagas as passagens, uma bolsa mensal de US$ 1.700 (hoje equivalente a cerca de R$ 6.800; sendo US$ 1.300 de bolsa mais US$ 400 como adicional de localidade), seguro saúde e o auxílio instalação, no valor de uma mensalidade da bolsa. “Então foram US$ 1.300, que eu gastei em roupa de frio e creme para o cabelo”, revela.

Por lá, também há racismo, conta a mestranda. “O preconceito racial nos EUA é mais aberto, não é velado como aqui no Brasil. Quase todos os funcionários da limpeza eram negros. Numa palestra em que fui, só havia outros dois ouvintes negros além de mim. A maioria era de homens brancos e velhos — não muito diferente do Brasil.”

Para ela, a política de cotas raciais, que vem sofrendo ataques do governo Bolsonaro, é um dos caminhos para que haja a reparação histórica dos erros cometidos com a população negra. “Diferentes povos foram retirados de suas terras e trazidos para terras desconhecidas e sua libertação só veio há 130 anos. O Estado tem a obrigação de retribuir por todo o trabalho dessa população que ajudou a construir esse país”.

De volta ao Brasil ela passa novamente a se sustentar apenas com a bolsa do mestrado, de R$ 1.500.
Sobre a possibilidade de sair do Brasil de novo, ela diz que o grande problema, além de ficar longe da família, é ter dinheiro para pagar as contas. “Nos EUA não tem bolsa de pós-graduação como aqui. No sistema de lá você é contratado pela universidade para auxiliar os professores nas disciplinas — e há poucas vagas.”

Ela classifica os cortes e bloqueios de verbas governamentais para a ciência no Brasil como um grande tiro no pé. “Vender tecnologia é melhor do que comprar. E para ter tecnologia brasileira, é preciso ter cientista brasileiro, que precisa de investimento em sua formação”, resume a astrônoma, que pretende seguir carreira acadêmica e se tornar professora universitária.