Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019

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Brasil Nova estação brasileira na Antártida será inaugurada em janeiro

Estação Comandante Ferraz foi destruída por um incêndio em 2012. (Foto: Divulgação)

A nova estação Comandante Ferraz, que vai substituir a base brasileira na Antártida que foi destruída em um incêndio em 2012, deve ser inaugurada em janeiro de 2020, mas cientistas acreditam que só em 2021 a estação esteja em condições adequadas de uso.

De acordo com o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), a estação é um importante instrumento para a pesquisa e também para a soberania nacional.

Paralisação de pesquisas

No verão austral 2019/2020, o Brasil deverá realizar a 38ª Operação Antártica (Operantar XXXVI), expedição de pesquisa na Antártida, que vem ocorrendo desde 1982, como parte do Proantar (Programa Antártico Brasileiro). Como raríssimas vezes aconteceu, no entanto, os cortes e contingenciamentos orçamentários impostos pelo atual governo federal nas áreas de ciência e educação colocam em risco a continuidade do trabalho dos cientistas brasileiros naquelas paragens geladas.

Muitos pesquisadores e bolsistas já não poderão participar da Operantar XXXVI, na qual será inaugurada a nova Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), e projetos de pesquisas poderão ser paralisados a partir do ano que vem.

Uma vastidão deserta e gelada de 14 milhões de quilômetros quadrados – uma vez e meia a área do Brasil -, onde a temperatura pode chegar a quase 90ºC negativos, com ventos de mais de 320 quilômetros por hora, e praticamente sem chuvas poderia ser considerada apenas uma região inóspita e estranha, de interesse para poucos, como aventureiros, amantes de boas fotos, de pinguins e das esquisitices do planeta Terra. É um grande engano.

“Apesar de ser mais conhecida pela presença de gelo e neve, a Antártida possui complexos ecossistemas, muito deles pouco conhecidos e até alguns ainda desconhecidos”, diz o pesquisador Luiz Henrique Rosa, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), coordenador do projeto MycoAntar do Proantar, que estuda fungos com possíveis propriedades medicinais.

De acordo com ele, esses ecossistemas abrigam seres vivos únicos e adaptados às condições extremas da região e que estão isolados geograficamente do restante do planeta. “Em outras palavras, a Antártida possui uma biodiversidade pouco conhecida pela ciência”, explica. “Por estarem sem contato com o mundo de fora, esses organismos, representados por animais, plantas e principalmente pelos micro-organismos, têm o potencial de produzirem substâncias de interesse em processos biotecnológicos.”

Eles podem ser comparados a fábricas vivas, capazes de produzir diferentes substâncias bioativas, entre as quais muitas com diferentes atividades biológicas.

“Em 12 anos de pesquisas, nosso grupo já descobriu espécies selvagens de fungos produtores de substâncias antimicrobianas, antivirais (contra o vírus da dengue), tripanossomicida (que atuam contra o Trypanossoma cruzi, o agente causador da doença de Chagas) e pesticidas (capazes de inibir outros fungos e ervas daninhas para a agricultura)”, conta Rosa. “Ou seja, as atividades científicas do Proantar têm grande potencial para contribuir com o setor produtivo do Brasil e na medicina, por exemplo.”

Importância climática global

O glaciólogo Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vice-presidente do Scientific Committtee on Antarctic Research, órgão máximo da pesquisa antártica internacional, lembra outro aspecto que reforça a importância das pesquisas na Antártida. De acordo com ele, o continente tem papel fundamental nas correntes marítimas e no clima de todo o mundo, que por sua vez influenciam, por exemplo, a riqueza marinha e o desempenho agrícola. “As regiões polares são tão importantes quanto os trópicos no sistema ambiental global”, garante.

Isso ocorre, de acordo com ele, porque a circulação atmosférica e oceânica e, consequentemente, o sistema climático terrestre, decorre da transferência de energia dos trópicos para as regiões polares. “Os processos que lá ocorrem nos afetam e vice-versa”, explica.

“As frentes frias, por exemplo, que podem chegar até o sul da Amazônia, são geradas no Oceano Austral. Graças às pesquisas antárticas, vamos melhorar a previsão do tempo no Brasil, essencial se quisermos aumentar nossa produtividade agrícola e diminuir o custo social de desastres climáticos. Por isso, insisto na frase, na qual o brasileiro ainda não está condicionado a pensar: a Antártida é tão importante quanto a Amazônia para o meio ambiente planetário.”

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