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Top model troca passarelas por crachá de médica em hospital do SUS

Ana Claudia descreve o primeiro dia de aula como "uma das coisas mais incríveis da vida". (Foto: Reprodução/Instagram)

A loura alta e magra de olhos verdes caminha a passos largos pelos corredores do Pronto Socorro de cirurgia clínica do Hospital Geral de Carapicuíba, na Grande São Paulo.

Entra no consultório número 2, onde examinará, sob supervisão de um residente e de uma médica, pacientes como Caroline Sena, com suspeita de trombose na perna direita.

“Foi um ótimo atendimento. Ela me tocou, examinou direito. Muitos médicos têm medo de tocar na gente”, avaliou a cozinheira, ao final da consulta, quando foi encaminhada para um exame de imagem.

Assim como os demais pacientes que aguardam atendimento naquela tarde de sexta-feira na unidade do SUS (Sistema Único de Saúde) que é referência na região, Caroline não fazia ideia de que a interna do 6º ano de medicina da Faculdade São Camilo é uma das mais famosas representantes da geração de top models brasileiras que tem em Gisele Bündchen a número 1.

Informada pela reportagem, ela elogia. “Nossa, não sabia! Mas a doutora tem mesmo cara de modelo!”

Ana Claudia Michels foi uma das “Angels” da Victoria’s Secret em um time de sonhos de brasileiras de sucesso no circuito internacional, ao lado de Alessandra Ambrosio, Ana Beatriz Barros, Raquel Zimmermann.

“Gisele começou um pouco antes, eu e as outras meninas, no mesmo ano”, recorda-se a catarinense de Joinville, que estreava nas passarelas em 1995, aos 14 anos, com seu 1m84 e 55 kg, com um estilo a la Kate Moss.

“Eu era bem esquisita, muita magra e alta. Não era o tipo gata, bonita”, define a futura médica, que abandonou o sonho da medicina ao embarcar para Nova York como aposta da agência Mega Models.

“Demorei para fazer sucesso lá fora, ficava uns dois meses, fazia um monte de foto e voltava para Joinville.” Percorreu todo o circuito mais prestigiado da alta moda em mais de duas décadas como modelo profissional: Paris, Milão, Londres, Nova York.

“No começo, eu era uma criança. Só pensava em voltar para casa, era muito sofrido”, conta.

Ao contrário de tantas adolescentes de sua geração, ela nunca sonhara em ser modelo. Fez um curso de manequim para aprender a andar de salto. Dois dias depois, era convidada para um primeiro desfile na região.

Descoberta por um olheiro, foi para São Paulo com a mãe na mesma semana a convite da agência. “Foi uma decisão em família de não deixar passar uma oportunidade.”

Hoje, aos 37 anos, a top model ostenta dez quilos a mais na silhueta sempre longilínea, após o nascimento dos dois filhos planejados em meio a uma corrida de longa distância para realizar o desejo de ser médica acalentado na infância.

“Desde muito pequena, meu olho brilhava quando via qualquer coisa ligada à saúde. Alguém doente, alguém machucado. Se tinha alguém com curativo, eu queria ver os pontos.”

Plano B

Depois de viver o auge nas passarelas internacionais no início dos anos 2000, Ana Cláudia voltou em definitivo ao Brasil. Em 2008, começava a pensar para valer em um plano B, quando teve um empurrão no divã do analista. “Um dia meu terapeuta me questionou: ‘E o seu sonho de fazer medicina?'”

Ela argumentou com o terapeuta que estava com quase 30 anos, já seria tarde, inviável. Mas resolveu seguir o conselho do psicanalista e se matricular em um cursinho.

“Me matriculei morrendo de vergonha. Tinha ficado 17 anos sem estudar.” Havia parado no primeiro ano do ensino médio, concluído por supletivo. “Sempre fui boa aluna.”

Medicina era uma meta ambiciosa. Seis meses depois, ao prestar o primeiro vestibular, ficou acima da 500ª colocação. Ficaria mais um ano se preparando para tentar novamente entrar na faculdade.

Dobrou a aposta e passava o dia inteiro no cursinho. Após as aulas, tirava dúvidas com os colegas que também preferiam estudar por lá.

“Eu só estudava, mas foi uma delícia. Até hoje não acredito que passei.” Foi classificada em 37º lugar. Eram 50 vagas.

Ela descreve o primeiro dia de aula como “uma das coisas mais incríveis da vida”. Emoção maior do que desfilar para mestres como Valentino ou estampar capas de revistas internacionais e dar pinta em festas badaladas ao redor do mundo.

Sucesso que lhe garantiu uma estabilidade financeira que custeia hoje os estudos em medicina. A mensalidade da faculdade é de R$ 8 mil.

Logo no primeiro semestre, encarou fisiologia e bioquímica. “Foi difícil, mas amei.” Continua trabalhando como modelo esporadicamente. “Como já sou mais conhecida, consigo encaixar os trabalhos.” Subiu na passarela há um mês em um desfile da grife Morena Rosa.

 

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