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VALOR DO VOTO

(Foto: Reprodução)

Não havendo outro melhor, adotou-se, como fundamento operacional da democracia, o principio de prevalência da maioria. Para identifica-la, criou-se o voto, instrumento de manifestação de vontade e aferição de escolhas, que se passou a entender como capaz de traduzir, na vontade coletiva, qual a versão dominante, se mais de uma houver.

Ultimamente, tem ocorrido episódios que menoscabam a intrínseca valia do voto. Reiteradas vezes se tem dito que ele é a “arma do povo”, posto que valendo igual, sendo produto do magnata ou do gari, teria (ou terá?) a força de criar uma isonomia cidadã, ainda que transitória.

Pode não ser bem assim mas é o melhor procedimento que temos na base de um ideal de igualdade, no que tange as pessoas.

Pois bem, escoceses, ingleses, galeses e irlandeses tiveram possibilidade de decidir, se queriam continuar membros da União Europeia. Foi o voto secreto usado para tanto. Mesmo sabendo que la o voto é facultativo, faz-se importante assinalar que, entre os espontaneamente registrados nas listas eleitorais, ocorreu uma abstenção por volta de 40%.

Tal numero fez pressupor que – isso é paradoxal – cidadãos de países que ajudaram a construir e/ou consolidar vários postulados democráticos, ficaram distantes e indiferentes na hora de escolher o modelo institucional para a sociedade de que fazem parte, num flagrante auto excluir-se do exercício do direito de influir.

Isso, porem, é apenas um dado parcial sobre o surpreendente e o questionável do processo. Apurados os votos, por mínima margem, venceu o BREXIT (distintivo midiático da proposta de saída).

Resumida a gestos pirotécnicos, protagonizados pelos “rebeldes”, a saída aventureira não tinha fundamentos. Excedendo-me, talvez, na argumentação, podia até dizer-se que era uma prova de paciência com a soberba britânica (p.ex. a preservação de costumes que até dão ares de implicância, tais como a direção do lado direito do veículo, a insistência monetária com a libra esterlina, a medição do espaço em jardas), tudo isso e muito mais, fez com que os ruidosos lideres da quase BRAVATA, irresponsavelmente conscientes da inviabilidade que propagaram, até porque “crentes” de que agora não teriam maioria eleitoral, renunciaram ao seu projeto enfatizando que não lhes cabia (caras de pau) a implantação do proposto.

E daí, os que deixaram de votar e muitos do que votaram pela “saída” deram-se conta de que a indiferença e/ou o desinteresse de uns e outros, somados a amadores e aprendizes da contestação (repito: porque não votaram ou porque votaram, alienados, sem medir as consequências) vitimaram a Grã-Bretanha, ameaçada de sofrer prejuízos econômicos e sociais, tão enormes quão continuados, impossíveis de calcular.

O desprezo pelo voto cobra logo o débito contraído. Por isso, ante o ocorrido, negocia-se agora uma saída político-jurídica. Governo e oposição que, por omissão, deixaram ocorrer, como fracos, o que não souberam impedir, como fortes (usando abusadamente da frase atribuída a Fernando, rei católico, condenando, irritado, suas tropas ao testemunhar, derrotado, a tomada da belíssima Granada, pelos mouros) negociam uma composição de força parlamentar.

Majoritários, os “derrotados” iniciam uma interpretação mais rigorosa de legislação aplicável à espécie, estabelecendo que o voto popular, no caso, só terá seu resultado aplicado se houver ratificação parlamentar.

Parece que a hermenêutica flexibilizada e o pragmatismo político, reunidos, encontraram um caminho legal que, se por ele trilhado, poder-se-ia até impedir a aplicação do malfadado plebiscito e atender as pesquisas feitas após a consulta publicitária, que registram majoritários números contra o BREXIT. Como diriam (e disseram) os Romanos, há que se subir encostas íngremes quando, por desatenção, perdemos o rumo de estradas planas.

Não me proponho a aprofundar a questão política, que, espero, evolua para o inaproveitamento operacional do plebiscito. O mais provável é que a decisão parlamentar se consagre, tendo a força de arquivar o plebiscito, por prejudicial, errôneo e não representativo da vontade coletiva.

Foram as passeatas, os comícios, os protestos universitários, as paralisações sindicais dos trabalhadores e as reuniões de empresários em auditórios confortáveis, tudo funcionando articulado, com postura espontânea, como se fosse um segmento de DEMOCRACIA DIRETA, que mostraram o quanto ingleses (e parceiros), se apercebiam do seu erro.

O que se impõe é não perder a visão histórica e recordar o quanto custou – inclusive em vidas – o direito de votar, até chegar-se ao voto universal. Não mais só um direito masculino, nem com valor menor ou maior (quando o patrimônio do eleitor era determinante para fixar o valor do seu voto), confundindo riqueza com valia cidadã.

A desatenção de uma população – como a inglesa – com um vinculo conjugal indissolúvel com o voto, a democracia e as consequências tão danosas que disso decorre quando inaproveitado, obriga que ela, como penitência, reconheça sua culpa e trate de curar as feridas que ajudou – e muito – a produzir.
Dói quando se vê a cidadania de hoje cometer o “crime” da desvalia do voto que os de antes, com sacrifício, conquistaram.

Já se disse: aquele que não exerce e valoriza o direito do voto, seguramente será dirigido por alguém que foi escolhido por quem vota.

Vale a pena conferir o pensamento de Oscar Wilde: “progredir é a realização de utopia. Mais ainda: é manter o que se tem e acrescer o (melhor) que não se tenha”. O “BREXISTAS”, seguramente, não leram o sábio indicativo do seu conterrâneo.

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