Sexta-feira, 28 de novembro de 2025
Por Redação O Sul | 7 de outubro de 2018
Depois de uma campanha sem precedentes, mais de 147 milhões de brasileiros votarão para um novo presidente. Chamaram a atenção os discursos violentos, o fato de um dos candidatos ter sido esfaqueado em campanha e a ampla movimentação de mulheres na campanha do “EleNão”.
Mas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, esses episódios estão por trás de transformações mais profundas na realidade política brasileira.
Fim do ciclo PT-PSDB
Há 24 anos, desde 1994, o Brasil observava uma alternância no poder entre PT e PSDB. Apenas candidatos desses dois partidos pareciam ter real chance de vencer uma eleição presidencial.
O PSDB assumiu dois mandatos consecutivos com Fernando Henrique Cardoso, e o PT, quatro mandatos, com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Para os especialistas, o fim do clico “PT-PSDB” é uma das principais características dessas eleições.
Fernando Haddad (PT), está em segundo lugar nas pesquisas de opinião, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), mas o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, está estagnado em quarto lugar.
Polarização da democracia
A eleição de 2014 já demonstrava um alto grau de polarização entre antipetistas e simpatizantes do PT. Nessas eleições, essa divisão assumiu maior nível.
Segundo a pesquisa Datafolha divulgada no sábado, Bolsonaro e Haddad chegariam ao segundo turno com percentuais maiores de rejeição do que de votos.
O candidato do PSL, que aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, tem 44% de rejeição. Já Haddad tem 25% das intenções de voto e 41% de rejeição.
Andrea Freitas, professora de ciência política da Unicamp, destaca que a divisão entre dois polos é tão acentuada, que pode ser observada em termos gênero, cor e renda. “Temos rico contra pobre, Sul contra Nordeste, mulheres contra homens, mais educados contra menos educados. Existe uma estratificação muito mais explícita”, diz.
As pesquisas mostram que Jair Bolsonaro encontra maior apoio entre homens, brancos, do Centro-Oeste, Sul e Sudeste, com alta escolaridade e renda.
É o perfil oposto de simpatizantes de Fernando Haddad – a maioria de negros e pardos, mulheres, baixa renda e escolaridade e do Nordeste.
Mobilização das mulheres
O terceiro aspecto citado foi o protagonismo das mulheres durante a campanha. Durante a campanha, mulheres contrárias à agenda de Jair Bolsonaro organizaram o movimento #EleNão, nas redes sociais, e fundaram, no Facebook, o grupo “Mulheres contra Bolsonaro”.
Em resposta, mulheres defensoras do candidato do PSL criaram a campanha EleSim.
As mulheres são quem estão segurando uma escalada ainda maior de Bolsonaro, dificultado as chances de uma vitória em primeiro turno.
Temor de retrocessos
As especialistas mencionaram o temor de um retrocesso democrático. “Em nenhum momento, desde a redemocratização, a gente teve uma eleição em se que se sentisse que algum candidato pudesse representar uma ameaça à democracia. Não se achava que Lula não respeitaria as regras do jogo. Mesmo [Fernando] Collor não se apresentava como ameaça à democracia”, disse Lara Mesquita, da FGV
Eleitores contrários à candidatura de Bolsonaro mencionam as propostas de aumentar a participação do Exército, o elogio à ditadura e a declaração do deputado do PSL de que não aceitará qualquer resultado das urnas que não seja a sua vitória, como indicadores de riscos à democracia.
Já o grupo contrário ao PT teme que, para governar num ambiente de alta rejeição e crescimento da direita, o partido possa lançar mão de propostas para fortalecer o Executivo e reduzir a autonomia de Legislativo, Judiciário e Ministério Público.
Preocupam os analistas a defesa, pelas chapas de Bolsonaro e Haddad, de uma nova Constituição Federal.
Enquanto o programa de governo de Fernando Haddad propõe a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, o candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, general Hamilton Mourão, defende nomear uma comissão de “notáveis” para reescrever a Constituição.
Especialistas em política e direito constitucional ouvidos pela BBC News Brasil afirmaram que a Constituição é uma das únicas garantias de que os direitos do grupo derrotado na futura eleição não serão atropelados. Portanto, as propostas dos dois primeiros candidatos de substituir as normas constitucionais acende um sinal de alerta.
Redes sociais
Pela primeira vez em mais de 20 anos, o candidato que está à frente das pesquisas é um dos que teve menos tempo de propaganda eleitoral gratuita na TV. Por integrar um partido com baixa representação no Congresso, Bolsonaro contou só com 8 segundos diários no horário eleitoral gratuito.
Geraldo Alckmin, que tinha o maior tempo de TV (5 minutos e 32 segundos), não deslanchou nas pesquisas de intenção de voto, figurando em quarto lugar.
Segundo a professora de ciência política da Unirio, Luciana Veiga, as redes sociais e, sobretudo, o WhatsApp assumiram destaque como estratégia de campanha. “Em 2014, o Brasil tinha 20 milhões de usuários de WhatsApp e agora são 120 milhões. A internet se tornou uma grande ferramenta”, diz.