Segunda-feira, 10 de Maio de 2021

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Saúde Medicamentos sem eficácia: reações a remédios usados contra o coronavírus devem ser monitoradas por médicos

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Em 2019, foram 8.578 notificações de eventos adversos causados por medicamentos e o número saltou para 19.464 em 2020. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Com o uso indiscriminado das medicações do kit covid, ineficazes contra o vírus, médicos avaliam que questionamentos sobre uso desses remédios devem passar a fazer parte da rotina no atendimento de pacientes. Casos de queixas cardiovasculares e hepáticas estão entre os que exigem mais atenção.

O aumento dos chamados eventos adversos já é notado por profissionais, mas ainda não é possível estimar danos em longo prazo. Isso porque os medicamentos têm sido usados fora do previsto pela bula e não há estudos mostrando os impactos do “coquetel”, formado por hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida – associados ou não. Conforme o jornal O Estado de S. Paulo revelou, médicos já relatam pacientes na fila de transplante de fígado após o uso de ivermectina.

No Painel de Notificações de Farmacovigilância, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registra suspeitas de eventos adversos de medicamentos e vacinas. Embora não seja possível estabelecer que os efeitos adversos realmente foram causados pelas medicações, já que podem estar relacionados com doenças pré-existentes ou com interações medicamentosas, os dados apontam um aumento dos registros tanto nos remédios de um modo geral quanto nas medicações do kit covid.

Em 2019, foram 8.578 notificações de eventos adversos causados por medicamentos e o número saltou para 19.464 em 2020. A cloroquina, amplamente defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, registrou 139 episódios em 2019. No ano seguinte, saltou para 916, alta de 558%.

A hidroxicloroquina e a ivermectina não tiveram registros em 2019, mas apresentaram 150 e 11 notificações, respectivamente, em 2020. Já a azitromicina passou de 25 para 80. Apenas a nitazoxanida apresentou queda, de oito para quatro. A Anvisa destaca que o painel “não apresenta resultados da análise de causalidade, assim, todos os casos são suspeitos” e alerta para riscos do uso indiscriminado e sem orientação médica. Para dificultar o cenário, os pacientes têm usado os produtos em quantidades e intervalos variados.

“Já tem sido observado em todo o País que há casos de alterações hepáticas e cardiológicas. Perguntar sobre medicações em uso já faz parte da nossa rotina e já lidamos com medicações que trazem efeitos colaterais. O que acontece é que ainda não tinha número tão grande de pessoas usando essas medicações do kit covid. Não basta perguntar se a pessoa teve covid e usou, porque tem pessoas que fazem uso de forma preventiva, embora essas medicações não tenham indicação para a doença”, diz Fabiano Gonçalves Guimarães, membro da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Segundo ele, pacientes que fizeram uso da medicação podem manter a rotina de check-ups, mas devem ficar atentos a mudanças. “Alterações das fezes ou urina, sensação de palpitação ou cansaço podem ser sintomas.” Guimarães afirma que, no futuro, médicos podem ter de lidar com efeitos ainda desconhecidos do uso em longo prazo ou em doses altas dessas drogas.

“Quando a gente pensa em danos por uso, sabemos que tem (casos) pelo uso habitual, mas desconhecemos que efeitos podem ocorrer por uso prolongado de medicações que não foram testadas para isso. Podemos ser surpreendidos por danos e efeitos colaterais”, alerta ele, que é médico da família. “E não temos dimensão de quantas pessoas fazem uso e teremos dificuldade de avançar nas pesquisas (sobre o tema), porque não temos referências internacionais, já que o kit está sendo usado basicamente no Brasil. Estudos internacionais foram interrompidos quando o dano causado pela medicação foi apresentado”, completa Guimarães

Consultor do Comitê Extraordinário Covid AMB, da Associação Médica Brasileira, o médico infectologista Alexandre Naime Barbosa diz que já há estudos que comprovaram que as drogas não são eficazes contra a covid, mas médicos continuam prescrevendo e pessoas se automedicam, mesmo diante dos riscos.

“Se juntar todos os estudos, já está muito claro que esse tratamento é ineficaz. Outras drogas têm ausência de benefício, como é o caso da ivermectina. O uso diário levou a cinco casos de toxicidade grave. Três evoluíram para óbito e outro saiu do quadro por um transplante hepático. No futuro, teremos de levar isso em consideração no nosso racional clínico, quando fazemos as hipóteses. Teremos de perguntar se o paciente tiver arritmia, exames hepáticos alterados.”

Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Botucatu, estima que, com o alto consumo dessas medicações, é possível que haja uma população acometida pelos impactos do uso indiscriminado no futuro. “Vamos ter um porcentual da população de arritmia por hidroxicloroquina e com questões hepáticas por ivermectina. É como se as pessoas estivessem tomando veneno. É inacreditável o que está acontecendo.”

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