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Madonna recupera o atrevimento que a tornou conhecida no novo álbum “Madame X”, em que faz um mergulho na música portuguesa, funk brasileiro, reggaeton, trap e world music

Em “Madame X”, Madonna se esbalda na língua portuguesa e chega a dividir os vocais com Anitta. (Foto: Divulgação)

Na primeira entrevista de divulgação de seu novo álbum, Madonna afirmou que queria voltar a ser ingênua. “O que quero dizer com isso é não pensar no que as pessoas acham a respeito do que você faz”, disse, no lançamento do clipe de “Medellín”.

Em “Madame X”, que será lançado nesta sexta-feira (14), Madonna volta a soar imprevisível. Esse atrevimento, embora uma marca na carreira da rainha do pop, há anos não aparecia em sua obra. Ou, pelo menos, soava meio forçado.

Quatro anos atrás, em “Rebel Heart”, ela apostava em produtores cobiçados no pop, colaborando com nomes como Diplo e Avicii e se aproximando do hip-hop com a ajuda de Mike Dean (produtor de Kanye West, que também atua no novo disco).

O resultado, como a maior parte da produção dela neste século, foi um álbum de EDM (electronic dance music) autorreferente e tímido. Não apenas em comparação com a própria discografia de Madonna, mas também com o pop contemporâneo.

O disco de 2015 vazou na internet meses antes de sair oficialmente, o que influenciou nas baixas vendas e também no emocional da artista. Ela chegou a passar um período sem querer trabalhar em novas composições.

De lá para cá, muita coisa mudou, e não apenas na música pop. Madonna deixou os Estados Unidos e foi morar em Lisboa com os filhos. “Me vi indo à escola buscar crianças e frequentando jogos de futebol”, ela contou na entrevista à MTV. Um de seus filhos, David Banda, 13, adotado no Maláui, treina na academia do Benfica.

“Comecei a conhecer pessoas. Artistas, músicos, pintores. E comecei a ir às casas das pessoas. Eles levavam comida, vinho e os músicos começavam a cantar coisas como fado e samba.” A música tradicional de Portugal aparece diluída em “Madame X”, assim como o funk brasileiro e o reggaeton latino. E até mesmo no rap Madonna absorve novas referências.

Em vez de Nicki Minaj e Nas, rappers cujo auge já ficou no passado, ela agora se une a Quavo, do Migos, e Swae Lee, do Rae Sremmurd. Os dois são representantes do trap, subgênero do hip-hop que vem dominando as paradas nos últimos anos.

Maluma, astro da Colômbia, surge em duas músicas, incluindo o single “Medellín”, um reggaeton de levada mais arrastada. “Ela é louca, mas é por isso é tão importante. Faz parte do pacote”, diz o cantor de 25 anos, cuja experiência com Madonna foi “uma das mais incríveis que pude ter na carreira”. “Para ser a rainha, você precisa ser um pouco louca. Amo-a.”

Ele foi a Londres e Los Angeles para compor e gravar com a cantora, em encontros que renderam também uma música (“Soltera”) para o seu mais recente álbum. Em Lisboa, a dupla filmou o clipe de “Medellín”, em que Madonna dá uma despudorada lambida no dedão do pé de Maluma.

Em “Madame X”, Madonna se esbalda na língua portuguesa e chega a dividir os vocais com Anitta. A brasileira tem participação tímida em “Faz Gostoso”, recriação de um funk da luso-brasileira Blaya, sucesso em Portugal. Há alguns anos, Madonna já havia postado vídeos se divertindo ao som de MC Kevinho, funkeiro de São Paulo, com as filhas.

Multifacetado, “Madame X” tem pretensões comerciais claras. Mira em um público globalizado e faz uso de ritmos bastante estabelecidos no streaming – do funk ao reggaeton, passando pelo trap. Nem por isso Madonna se limita à apropriação de tendências. O ineditismo do novo disco, notado pela crítica internacional, está ligado ao desconforto e ao deslumbramento que a acompanham em uma nova abertura cultural.

Nas palavras de Madonna, a busca é pela ingenuidade. “No começo, eu era ingênua, e isso era uma coisa boa. Não me preocupava com nada. Quero voltar para aquela época da minha vida, quando eu tinha uns 19 anos, que foi quando recebi o apelido de Madame X.”

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