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Por que ninguém se espanta com o preço do orégano?

Como qualquer ferramenta, o Facebook serve para o bem e serve para o mal. (Foto: AP)

Um amigo mandou-me um cálculo. Comprou um saquinho de orégano de 3g por 1,99 reais. Barato, não? Ledo engano. O quilo sai por incríveis 633,33 reais. Todos nos enganam fazendo essas embalagens pequenas e fazendo parecer que é barato e bom. E vão comendo pelas beiradas… Esgarçando aos poucos. Tinta para impressora parece barato… Vendida em pequeníssimas porções. Fosse por quilo, duvido que alguém compraria. Custa 13.575,00 reais. Bom, a champagne Veuve Clicquot custa só 1,29 reais por mililitro (é sarcasmo!).

Assim é o nosso cotidiano. Vemos a árvore e não damos conta da floresta. E de seus perigos. Somos enganados pelas companhias telefônicas, pelos bares dos aeroportos, pelos taxistas, pelos azuizinhos, pela EPTC, pela prefeitura, pelos governos, pelas promessas de segurança pública… Todos os dias. E nem nos damos conta. Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê? Porque não compramos Veuve Clickuot. Na verdade, nem pensamos em comprar a tal champagne porque ela não é vendida (só) a 1,29 reais o mililitro. Talvez se fosse vendida em drops, compraríamos. Mas compramos o orégano e as ligações telefônicas.

Os restaurantes de Pindorama estão cada vez mais caros e…piores. Os estacionamentos nos esfolam cotidianamente. Agora já não aceitam cartão! Só dinheiro! Nas estradas, não conseguimos andar. E quando escapamos do engarrafamento de horas, caímos na mão do azulzinho ou da polícia rodoviária que têm “fé pública”. Recorra para a Jari (rá, rá e rá). Tudo em pílulas. Compramos em pílulas e não calculamos o preço do “quilograma social”.

Facebook e pós-verdades

De algum (ou todo) modo, isso se liga aos tempos atuais. Uso a ferramenta Facebook como divulgação de meus livros, artigos e colunas que escrevo. De algum modo, a pós-modernidade deve servir para alguma coisa, além de alienar as pessoas.

Fiquei refletindo nesse dia sobre o tal Facebook e para o quê serve. Como qualquer ferramenta, serve para o bem e serve para o mal. É como a pólvora, o álcool, etc. Platão dizia que a linguagem é um bálsamo… ou um veneno. Embora os debates sejam frágeis, o Facebook me ajuda. Claro que os comentários não passam de cinco ou dez linhas. Mas, vá lá. É melhor do que escrever uma carta e ir ao correio postá-la. Reconheço isso. Reconheço também que, por vezes, eu mesmo exagero. Já coloquei coisas no face, que, penso, não eram necessárias. Eu mesmo não sei o limite. Não podemos nos eximir de discutir a nossa inserção nessa pós-modernidade (que não se sabe bem o que é). Assim:
– Essa “coisa” de que o mundo só existe se for fotografado ou registrado é ou não é uma alienação?
– Por que eu devo ficar sabendo do prato que você comeu ontem ou vai comer hoje? Imaginemos que a cada dia cada um dos bilhões de faceboqueanos acorde e ponha no face: fui ao banheiro, escovei os dentes, deu uma urinada, depois fiz não sei o que e agora estou tomando café da marca tal, comendo meio brioche e agora vou….
– Transformamos nossa vida em narrativas?
– Se não narramos o mundo, este não mais existe? O que é a existência, então? Ao mesmo tempo, todos se queixam de invasão de privacidade. Mas são os primeiros a mostrar até as calcinhas ou as cuecas para o mundo todo; já vi postagem de uma pessoa escovando os dentes.
– Por que será que queremos mostrar nossas entranhas?
– Isso não transforma nossa relação com o mundo em uma coisa explícita-tipo-pornográfica, em vez de erótica (eros-vida)?
Por vezes o facebook me deixa profundamente irritado. A internet é o lugar em que os idiotas perdem a timidez. E desandam a escrever. Cada pessoa se transforma em uma editora. Incrível.

E o pior: você nada pode fazer, a não ser excluir a imagem ou mensagem. Mas que chega até você, ah, chega.

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