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25% dos médicos do País não aceitam planos de saúde

As cidades gaúchas selecionadas são: Erechim, Ijuí, Novo Hamburgo e São Leopoldo (Foto: Banco de Dados)

Cerca de 25% dos médicos que trabalham em consultórios no Brasil não aceitam nenhum tipo de plano de saúde. A constatação aparece pela primeira vez no relatório “Demografia Médica”, feito pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) com o apoio do CFM (Conselho Federal de Medicina) e do conselho local.

Segundo especialistas do setor, nessa última década, os médicos passaram a se concentrar em consultórios para atender clientes de planos de saúde. Mas, com a defasagem no valor das consultas, muitos deles deixaram os convênios e optaram pelo atendimento puramente particular. “Os 75% dos médicos que ainda atendem planos também têm reservado cada vez menos espaço na agenda para pacientes conveniados, priorizando particulares”, diz o professor Mario Scheffer, coordenador do estudo.

A dentista Maria Clara Santana, 45 anos, concorda. “Fiz o teste. Você liga pelo plano, a secretária diz que o médico não tem agenda nos próximos meses. Você pergunta se tem particular e a disponibilidade é quase que imediata.” Entre os fatores que estão levando médicos a só atender pacientes particulares estão maior remuneração (a consulta chega a custar dez vezes mais do que a paga pelo plano), ausência de burocracia (como os prazos para pagamento impostos pelos planos), um menor número de pacientes para atender e mais tempo para se dedicar a ele.

Valores astronômicos.

Segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), o valor médio da consulta paga pelos convênios está em torno de 60 reais. As entidades médicas defendem um valor de 130 reais. Em consultórios particulares, os preços podem variar de 200 reais a 1,5 mil reais.

“Muitos pacientes preferem ficar com o médico que confia e pagar a consulta. O que onera são os exames, a internação, não é a consulta”, afirma o médico Bráulio Luna Filho. Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo), diz que a entidade estuda um novo modelo de remuneração que traga mais equilíbrio e que atenda a todos os atores da cadeia de saúde. “Temos de buscar um meio termo em que todos ganhem”, frisa.

Ramos pontua, no entanto, a necessidade de discutir a remuneração de acordo com o desempenho. “Aquele que melhor cuida do paciente ganha mais. Precisamos também conter o desperdício, que drena 20% dos recursos do setor”, afirma Ramos.

A advogada Renata Vilhena, especialista em direito à saúde, diz que muitos médicos só aceitam usuários de planos quando estão no início da carreira ou até conseguir uma boa carteira de clientes. Depois, passam a atender no modelo particular. Segundo Rosana Chiavassa, advogada especialista em relações de consumo, alguns clientes têm pleiteado na Justiça a atualização do valor do reembolso das consultas particulares, como forma de reduzir o prejuízo. “As operadoras costumam congelar os valores em uma tabela de ‘zilhões’ de anos atrás.”

Cobrança abusiva.

Por outro lado, ela lembra que os médicos cobram o que querem pelas consultas. “É um abuso. E o consumidor não tem coragem de negociar, se sente refém da situação.”
De acordo com Scheffer, os especialistas primeiro deixaram o SUS para atender usuários de planos de saúde nos consultórios, e agora já não os atendem mais (ou atendem muito pouco). “Foi retomada uma coisa que a gente achou que estava em declínio: o médico ‘liberalzão’, que atende quem quer, quando quer e cobra quanto quer”, aponta.

Para ele, isso não é resultado apenas da decisão individual do médico, mas também de falhas das políticas em saúde. “É o pior dos mundos para um sistema universal de saúde. As pessoas cada vez mais têm de colocar dinheiro do próprio bolso.”

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