Uma parcela significativa do eleitorado brasileiro afirma que pretende escolher seu candidato à Presidência da República não apenas por identificação com propostas ou características pessoais, mas também para impedir a vitória de outro concorrente. Segundo pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (21), 30% dos eleitores dizem que esse é o principal motivo de sua escolha.
O levantamento mostra o grau de polarização da disputa presidencial de 2026 e indica que uma parte importante do eleitorado poderá definir o voto com base na rejeição ao adversário. Outros 61% afirmam que escolhem seu candidato por considerá-lo mais preparado ou por concordarem com suas propostas.
A pesquisa foi realizada entre os dias 18 e 19 de agosto, com 2.058 entrevistas em 128 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O comportamento varia de acordo com o candidato escolhido. Entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 23% afirmam que votam no presidente principalmente para impedir a eleição de outro candidato. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), o percentual sobe para 35%.
O índice é ainda maior entre os eleitores de outros nomes da corrida presidencial. Entre os que declaram preferência por Romeu Zema (Novo), 37% afirmam que o voto tem como objetivo evitar a vitória de outro candidato. Entre os eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), são 31%.
Os números ajudam a explicar a importância da rejeição na campanha eleitoral. Em uma disputa marcada pela polarização entre Lula e Flávio, parte do eleitorado pode não considerar a escolha como uma decisão exclusivamente positiva em favor de determinado candidato, mas como uma estratégia para impedir que o adversário chegue ao Palácio do Planalto.
O levantamento também mostra que a maioria dos eleitores já possui uma decisão relativamente consolidada. Segundo o Datafolha, 72% afirmam que o voto está definido. Entre os eleitores de Lula, o percentual chega a 82%, enquanto entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro é de 78%.
O cenário indica que ainda existe espaço para mudanças, principalmente entre eleitores de candidatos de menor desempenho nas pesquisas. No entanto, a parcela de votos já consolidada nos dois principais grupos pode limitar o crescimento dos adversários.
Na pesquisa nacional mais recente do instituto, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 33%. Ronaldo Caiado tem 6%, Renan Santos aparece com 5%, Romeu Zema tem 3%, enquanto outros candidatos registram percentuais menores.
No segundo turno, Lula também aparece à frente, mas em uma disputa mais apertada. O petista tem 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro, dentro de um cenário que mantém a eleição aberta.
A importância do chamado voto para evitar outro candidato tende a aumentar conforme a campanha avance e a possibilidade de segundo turno fique mais clara. Nesse cenário, os candidatos podem concentrar esforços não apenas em convencer eleitores indecisos, mas também em ampliar a rejeição aos adversários.
A estratégia já aparece nos discursos das principais campanhas. Lula e Flávio têm concentrado parte significativa da comunicação eleitoral em críticas mútuas, enquanto candidatos de centro e de direita tentam se apresentar como alternativas à polarização.
O comportamento dos eleitores também pode influenciar uma eventual migração de votos entre o primeiro e o segundo turno. Candidatos eliminados terão de orientar seus apoiadores, e parte desse eleitorado poderá escolher entre Lula e Flávio não necessariamente por identificação direta, mas pelo desejo de impedir a vitória de um dos dois.
