O Rio Grande do Sul ostenta hoje 62 delegacias com o selo Amiga dos Animais. É um número expressivo, fruto de um projeto iniciado em 2021 com apenas 15 unidades. A expansão mostra que a pauta da proteção animal ganhou espaço dentro da Polícia Civil. Mas a pergunta que não quer calar é: isso basta?
A morte brutal do cão Orelha em Santa Catarina reacendeu a indignação coletiva. Casos como esse não são exceção, mas sintomas de uma cultura que ainda tolera a crueldade contra seres indefesos. A criação de cartórios especializados é um passo importante, mas não resolve o problema estrutural: a falta de punição efetiva e a morosidade da Justiça.
As delegacias verificam denúncias, fiscalizam, resgatam animais e encaminham para adoção. É um trabalho admirável, mas que depende de recursos humanos e financeiros. Sem investimento contínuo, o selo corre o risco de virar apenas uma placa na parede. O mesmo vale para a legislação: a Lei 14.064 endureceu penas para maus-tratos a cães e gatos, mas quantos agressores realmente cumprem reclusão?
Há também um aspecto cultural. Maus-tratos não se resumem a agressões físicas; incluem negligência, abandono, falta de cuidados básicos. A sociedade precisa entender que animal não é objeto descartável. Delegacias especializadas ajudam a dar visibilidade ao tema, mas é a mudança de mentalidade que garante resultados duradouros.
O governo fala em criar um Fundo Estadual de Bem-Estar Animal. Se sair do papel, pode ser um marco. Mas fundos e projetos só têm sentido se acompanhados de fiscalização rigorosa e campanhas educativas permanentes.
Em resumo: as Delegacias Amigas dos Animais são um avanço, mas não podem ser vistas como solução definitiva. São parte de um mosaico que inclui leis mais duras, Justiça ágil, educação e, sobretudo, empatia. Orelha não morreu em vão se conseguirmos transformar a comoção em ação. (Por Gisele Flores – Gisele@pampa.com.br)
